terça-feira, 25 de agosto de 2015

A "DECLARAÇÃO DE FÉ DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS”

A “Declaração de Fé das Assembleias de Deus” e o seu momento histórico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB) criou uma comissão especial para a elaboração de uma inédita Declaração de Fé das Assembleias de Deus. A previsão é que essa comissão conclua o trabalho em 2017. Nesses próximos meses alguns fóruns serão realizados em todo o país para que a elaboração do documento tenha a contribuição da igreja nacional. 

A Assembleia de Deus não está formulando um credo. A palavra Credo está sempre associada aos primeiros documentos da Igreja Cristã antes da primeira cisão entre a igreja ocidental e oriental. Nesse grupo de documentos há o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano. O que caracteriza o Credo é o seu caráter ecumênico (serve a todas as tradições cristãs  católica, ortodoxa e protestante), histórico, devocional e sacramental. Os assembleianos também não estão formulando uma Confissão de Fé ou um Catecismo Maior. Essas nomenclaturas normalmente estão associadas aos documentos do período da Reforma Protestante. Nesse grupo de documentos há o Catecismo Maior de Lutero, a Confissão de Fé Belga, o Catecismo de Heidelberg, a Confissão de Fé de Westminster, os 39 Artigos da Religião etc. O que a Assembleia de Deus está fazendo é uma Declaração de Fé, um documento que naturalmente sofrerá influências dos credos da tradição cristã e das confissões reformadas.

Até a presente data o único documento doutrinário institucional das Assembleias de Deus brasileira é o Cremos. O Cremos, um texto conciso e simples, é um resumo das Verdades Fundamentais  que é a declaração de fé das Assembleias de Deus norte-americana (AG). Adaptar o documento americano para a igreja brasileira foi uma iniciativa do pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914 — 1988). Vasconcelos trabalhava com a perspectiva que a igreja brasileira precisava de consolidação. O Cremos teve a primeira publicação em junho de 1969 no jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação da denominação.


“Declaração das Verdades Fundamentais”


Inicialmente com o nome Declaração de Verdades, as Assembleias de Deus nos Estados Unidos (AG) prepararam esse documento ainda em 1916, ou seja, apenas dois anos após a fundação oficial da denominação. No Concílio Geral da AG em 1961 foi aprovado o atual documento Declaração das Verdades Fundamentais com 16 pontos. A única diferença entre os dois papéis era a expressão “inteira santificação”, que, ao ser excluída na nova declaração de 1961, retirava da doutrina assembleiana a influência wesleyana.

Desde cedo a AG teve forte preocupação doutrinária. Isso porque no seu começo alguns grupos defendiam doutrinas não trinitárias e pregavam um restauracionismo além dos limites da ortodoxia. Outro debate importante na época girou em torno da santificação  onde a visão próxima da tradição reformada do evangelista William Howard Durham sobre a “obra consumada no Calvário” acabou prevalecendo em relação à santificação como “segunda obra da graça” de Charles Fox Parham e William Seymour, ambos de origem no Movimento da Santidade que, por outro lado, teve decisiva influência da doutrina da “perfeição cristã” de John Wesley.

Ao contrário da irmã americana, a Assembleia de Deus no Brasil só agora determinou a criação de sua própria Declaração de Fé, mas o debate não é recente. Desde a década de 1960 pastores mais esclarecidos, como o próprio Alcebíades Vasconcelos, alertavam sobre a necessidade de oficialização doutrinária. E, é claro, tais pastores sofreram a oposição daqueles líderes que temiam o tradicionalismo nas Assembleias de Deus.


A necessidade de posição na catolicidade da igreja


Embora o Cremos seja ortodoxo e consistente há a necessidade de um documento mais amplo. E, talvez, essa seja a principal novidade da declaração que está sendo elaborada, pois esta não ficará restrita aos atuais temas do Cremos (trindade, salvação, santificação, escatologia, ordenanças etc.), mas também trará a posição da denominação em assuntos de ética e moralidade (divórcio e segundo casamento, homossexualidade, aborto, eutanásia, etc.). É importante que não somente a igreja tenha posição, mas saiba o conteúdo daquilo que acredita.  

Espera-se que o documento não seja excessivamente hermético e nem caia na tentação de fechar qualquer assunto não essencial como fundamental. Ainda que haja a necessidade de um aprofundamento, esse processo não deve ser feito à custa da consciência que o “Espírito sopra onde quer” e que a Igreja não pode viver em função do denominacionalismo, ainda que seja ela mesma uma denominação histórica. A AD é apenas parte da cristandade e sempre precisa lembrar aos seus membros deste fato. A igreja do Senhor nunca é uma seita, ou seja, fechada em si como o grupo iluminado e exclusivo.  O pastor E. N. Bell, o formulador da Declaração de Verdades da AG em 1916, humildemente declarou sobre o documento pronto: “a fraseologia empregada em tal declaração não é inspirada e nem a defendemos contenciosamente” (grifo meu) [1]. Que esse seja o lema dessa nova Declaração de Fé.

Outra posição que cabe destacar é de Jacó Armínio, que longe da controvérsia soteriológica, declarou pela moderação na relação entre as confissões e seus rebeldes:

Mas o Sínodo não deverá assumir a autoridade de impor aos outros, pela força, as resoluções que possam ter sido aprovadas por consentimento unânime. Pois esta reflexão sempre deve ser sugerida: “Embora este Sínodo possa parecer ter feito todas as coisas conscientemente, é possível que, afinal, possa ter cometido um erro de juízo”. Essa modéstia e moderação de mente terão maior poder e maior influência que qualquer rigor excessivo possa ter sobre a consciência dos dissidentes obstinados, e sobre todo o grupo de fiéis, porque segundo Lactâncio, 'Para recomendar a fé aos outros devemos fazer dela assunto de persuasão, e não de compulsão'. Tertuliano também diz: “Nada está mais distante de ser algo religioso do que o emprego da coerção a respeito da religião”. [2]

É importante sempre defender as doutrinas da denominação sem, é claro, esquecer-se da catolicidade da igreja, ou seja, lembrando que a Igreja do Senhor tem um caráter além do tempo, do espaço, da cultura e das histórias locais. A denominação não pode usar o combate ao sincretismo como desculpa para o sectarismo, como bem escreveu o teólogo Justo González:

No entanto, o que muitas vezes não vemos é que o sincretismo e o sectarismo caminham paralelamente, que é muito fácil usar a ameaça do sincretismo como desculpa para sectarismo, e que, inclusive, o sincretismo pode ser sectário. Como o próprio nome indica, uma seita é um grupo que toma uma parte da realidade e da experiência como se fosse o todo. O termo “seita”, por si mesmo, não diz nada acerca da verdade ou falsidade, ortodoxia ou heterodoxia dos ensinamentos de um grupo. O que quer dizer é que um grupo, não importa o quanto ortodoxo seja, se equivoca quando considera que seu próprio âmbito da realidade, sua própria perspectiva limitada são toda a realidade ou a única perspectiva possível. Uma seita pode, então, ser perfeitamente ortodoxa. Certamente, pode ser mais ortodoxa que qualquer outro grupo. Mas, enquanto se considera como a única ortodoxia possível, torna-se sectária. [3]

Portanto, o momento é histórico e relevante, mas ao mesmo tempo, como dito acima, se deve evitar qualquer tentação sectária. Que o documento seja claro o suficiente para evitar interpretações dúbias em questões essenciais e seja livre o suficiente nas controvérsias não essenciais. E, ao mesmo tempo, que honre as Sagradas Escrituras e a tradição pentecostal-assembleiana. O desafio não é fácil e a comunidade assembleiana faz bem ao orar por esse período de elaboração e meditação.


Referências Bibliográficas:

[1] HORTON, Stanley M. e MENZIES, William W. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.  p 11. Bell ainda declarou: Essas Assembleias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e à filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo; e acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas [HORTON, Stanley M. (Ed.)Teologia Sistemática: uma Perspectiva Pentecostal. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 21.]

[2] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. p 174.

[3] GONZÁLEZ, Justo L. Mapas Para a História Futura da Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 99.



Nenhum comentário:

Postar um comentário