quinta-feira, 5 de julho de 2012

A suposta contradição na genealogia de JESUS

Ao fazermos uma comparação entre a genealogia de Jesus Cristo apresentada por Mateus (Mt 1.1-16) e a genealogia de Jesus Cristo apresentada por Lucas (Lc 3.23-38), observamos uma suposta discrepância entre os dois Evangelhos com respeito à genealogia do nosso Senhor e Salvador. Quanto a isso, o historiador Eusébio de Cesaréia (263 a 340 d.C.), em sua obra "História Eclesiástica", nos dá uma explicação salutar, como se vê a seguir.

Uma vez que a genealogia de Cristo nos é dada de diferentes maneiras por Mateus e Lucas, supondo-se em geral que estejam em desacordo em suas afirmações; e uma vez que todo crente, pelo desejo de conhecer a verdade, tem sido levado a empreender alguma investigação para explicar as passagens, podemos também acrescentar o relato que nos chegou. Referimo-nos à história sobre essas passagens com respeito à harmonia da genealogia dos Evangelhos que nos foi transmitida por Africano numa epístola a Aristides. Depois de ter refutado as opiniões dos outros, considerando-as forçadas e fictícias, apresenta o relato, por ele mesmo certificado, com as seguintes palavras: "Era costumeiro em Israel calcular os nomes das gerações, ou de acordo com a natureza ou de acordo com a lei: de acordo com a natureza, pela sucessão de filhos legítimos; de acordo com a lei, quando outro criava filhos em nome de um irmão que houvesse morrido sem deixar filhos. Pois uma vez que a esperança de uma ressurreição ainda não fora claramente dada, imitavam a promessa que se cumpriria por um tipo de ressurreição mortal, com vistas a perpetuar o nome da pessoa que morrera. Portanto, alguns dos que são inseridos nesse quadro genealógico sucedem-se uns aos outros na ordem natural de pai e filho; alguns, repetindo, nasceram de outros, tendo sido atribuídos a outro pai por nome, tendo sido registrados tanto os pais reais como os atribuídos. Assim também, os Evangelhos não fizeram declarações falsas, quer calculando pela ordem da natureza, quer de acordo com a lei. Visto que as famílias descendentes de Salomão e de Natã foram de tal maneira misturadas por substituições em lugar dos que haviam morrido sem filhos, de acordo com casamentos e perpetuação de descendência, as mesmas pessoas são devidamente consideradas em um aspecto pertencente a uma delas e em outro aspecto à outra. Assim é que ambos os relatos são verdadeiros, ou seja, dos que foram considerados pais, e dos que realmente foram pais, e chegam a José com considerável complexidade, é verdade, mas com grande precisão. Para que isso, contudo, possa tornar-se evidente, vou estabelecer as séries de gerações. Calculando (na genealogia de Mateus) as gerações desde Davi, passando por Salomão, descobre-se que o terceiro de trás para a frente é Matã, que gerou Jacó, pai de José. Mas calculando, como Lucas, desde Natã, o filho de Davi, descobrir-se-á que o terceiro é Melqui, cujo filho era Eli, o pai de José. Sendo José, portanto, nosso objeto proposto, vamos mostrar como aconteceu de cada um ser registrado como seu pai: Jacó, conforme se deduz de Salomão, e Eli, de Natã; também, como aconteceu de esses dois, Jacó e Eli, serem irmãos; e , além disso, como se comprova que os pais deles, Matã e Melqui, sendo de famílias diferentes, são avôs de José. 

Eusébio de Cesaréia
(263-340 d.C.)
Matã e Melqui, tendo casado em sucessão com a mesma mulher, tiveram filhos irmãos pela mesma mãe, pois a lei não proibia a uma mulher que tivesse perdido o marido, quer por divórcio, quer pela morte dele, casar-se de novo. Matã, portanto, que remonta sua linhagem a Salomão, primeiro teve Jacó, por meio de Esta, pois é esse o seu nome conforme transmitido pela tradição. Com a morte de Matã, Melqui, que remonta sua descendência a Natã, casou-se com ela, pois era da mesma tribo, ainda que de outra família, e, conforme se disse, teve o filho Eli. Assim, portanto, vamos encontrar dois de famílias diferentes, Jacó e Eli, irmãos pela mesma mãe. Um desses, Jacó, pela morte do irmão, casou-se com a viúva, tornou-se pai de um terceiro, ou seja, José, seu filho tanto pela natureza como por atribuição. Assim, está escrito: Jacó gerou José. Mas de acordo com a lei, era filho de Eli, pois Jacó sendo seu irmão, deu-lhe descendência. Desse modo, a genealogia traçada também por intermédio dele não será considerada imprecisa, sendo, de acordo com Mateus, dada da seguinte maneira: 'mas Jacó gerou a José'. Mas Lucas, por outro lado, afirma: 'que era o filho, conforme se supunha [pois isso também ele acrescenta], o filho de José, o filho de Eli, o filho de Melqui'. Visto que não era possível expressar a genealogia legal de modo mais distinto, ele omite por completo a expressão 'ele gerou', numa genealogia como essa, até o fim; tendo chegado a Adão, 'que era filho de Deus', resolve toda a série referindo-se a Deus. Isso também não é impossível de provar nem conjectura vã. Pois os parentes de nosso Senhor, de acordo com a carne, seja para apresentar  as próprias origens ilustres, seja para simplesmente mostrar o fato, mas de qualquer maneira apegados estritamente à verdade, também transmitiram os seguintes relatos: Salteadores da Iduméia, em ataque a Asquelomdescendência desprezível e destinou todos os registros das famílias deles às chamas, pensando que ele mesmo poderia  parecer de nobre origem, pelo fato de ninguém mais ser capaz de traçar sua linhagem pelos registros públicos, ligando-o aos patriarcas ou aos prosélitos e àqueles estrangeiros. Uns poucos, porém, dos cuidadosos, quer pela lembrança dos nomes, quer por terem em seu poder  de alguma outra maneira, por meio de cópias, registros particulares próprios, gloriavam-se na idéia de preservar a memória de sua nobre descendência. Entre esses estavam as pessoas acima mencionadas, chamadas desposyni por conta de sua afinidade com a família de nosso Salvador. Os que saíram de Nazaré e Koshba, vilas da Judéia, para outras partes do mundo, explicaram que a mencionada genealogia retirada do livro de registros  diários era tão fidedigna quanto possível. Desse modo, quer o seja quer não, como eu ou qualquer juiz imparcial  diria, certamente ninguém poderia descobrir interpretação mais óbvia. E isso, então, deve bastar nesse assunto, pois, ainda que não seja  sustentado por testemunhos, nada temos a apresentar que seja melhor ou mais coerente com a verdade." Ao final da mesma epístola, esse escritor (Africano), acrescenta o seguinte: "Matã, cuja descendência remonta a Salomão, gerou a Jacó, com a morte de Matã, Melqui, cuja linhagem vem de Natã, ao se casar com a viúva daquele, teve Eli. Assim, Eli e Jacó eram irmãos pela mesma mãe. Morrendo Eli sem filhos, Jacó lhe deu descendência, sendo José pertencente a si de acordo com a natureza, mas a Eli de acordo com a lei. Desse modo, José era filho de ambos". Uma vez assim traçada a linhagem de José, há, ao mesmo tempo, possíveis indícios de que Maria também era da mesma tribo, já que, pela lei mosaica, não se permitiam casamentos entre tribos diferentes. Pois a ordem era casar-se com um do mesmo povo e da mesma família, de modo que a herança não fosse transferida de uma tribo para outra.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CESARÉIA, Eusébio de, História Eclesiástica, 1ª ed., CPAD, 1999, pp. 31 a 34.