domingo, 1 de dezembro de 2013

A questão contraditória da Reforma: Imputação ou Infusão?


Situação Político Social 

Desde Agostinho até Lutero havia passado quase mil anos. Todas as verdades que o bispo de Hipona havia proclamado, como: a soberania de Deus, a eleição, a predestinação e principalmente a graça de Deus, já haviam sido diluídas na confusão teológica da Idade Média. A situação político social no final dos séculos XIV e XV era de uma verdadeira babilônia; uma época de muita ansiedade. Os desmandos da Igreja proliferavam cada vez mais e, por outro lado, grupos ansiavam por uma reforma, como os Lombardos na Inglaterra, os Hussitas na Boêmia e os Valdenses na Itália e França. Muitos desses grupos, reagindo à situação presente da Igreja, foram a extremos. 

Politicamente falando, o mundo passava por mudanças radicais. Quando Lutero pregou suas 95 teses no portal da Igreja de Wittembeg, fazia apenas 25 anos que a América tinha sido descoberta; e 17 anos da descoberta do Brasil. Os portugueses e os espanhóis eram os donos dos mares e chegavam até dividir o novo mundo no famoso Tratado de Tordesilhas (1494). A Europa era dominada pelo grande Império Romano. Na Itália, surgia a Renascença desafiando os costumes da época e trazendo de volta os valores e as prioridades dos pensadores gregos.

Junto com esse contexto político social, estava o poder religioso, onde a Igreja Católica Romana já havia sofrido sua primeira cisão; a separação da igreja oriental, chamada ortodoxa. Mesmo assim, a Igreja Católica tentava manter o domínio através de muito misticismo e superstições, tais como veneração de santos, peregrinações a lugares sagrados e missa para mortos. Nesse período, vários movimentos culturais foram sufocados e muitas pessoas foram sacrificadas, como o caso de John Wycliffe na Inglaterra e João Huss, o grande reformador da Boêmia que foi queimado vivo depois de condenado pelo Concílio de Constança (1415). 

As indulgências, ou a venda de perdão pela Igreja, foi a última gota em um copo cheio. Muito dinheiro foi arrecadado com essa prática corrupta. O comércio religioso chegou a níveis muito baixo, ao ponto de se garantir que tão logo o dinheiro fosse pago, as almas seriam libertadas do purgatório para o céu. Tudo isso gerava uma neurose religiosa, uma morbidez patológica no período que antecedeu a Reforma. O medo do inferno e da morte predominava na mente do povo. Timothy George, em seu livro “Teologia dos Reformadores” nos retrata com detalhes essa época. Diz ele que havia um pavor geral em relação ao sofrimento e a morte, a fome e a peste, e que a crise agrária chegou a níveis insuportáveis, que houve até canibalismo. Ele nos conta também que a peste negra atingiu a Europa (1349) e arrasou um terço da população. Os sermões e as gravuras da época retratavam essa situação caótica. 

A crise existencial em Martinho Lutero 

Foi nesse contexto que Lutero lutava para encontrar Deus. Procurava um pouco de paz e misericórdia. Certo dia durante uma tempestade com raios, ele teve sua grande crise de medo da morte e do inferno, e fez a sua decisão de tornar-se monge. No entanto, o mosteiro não resolveu o seu problema, antes pelo contrário, quanto mais se exercitava nas penitencias impostas, mais sentia desespero e medo. Lutero usava a palavra “anfechtung” (pavor, desespero, ansiedade) para descrever seus conflitos internos em busca do Deus misericordioso. 

Essa luta não foi apenas uma crise na vida de Lutero, mas o acompanhou por toda vida. É o que se pode apreender de sua afirmação: “Não aprendi minha teologia toda de uma vez, mas tive de buscá-la mais a fundo, onde minhas tentações “anfechtungen” me levavam..., não a compreensão, a leitura, ou a especulação, mas o viver, ou melhor, o morrer e o ser condenado fazem um teólogo”. [1] 

Lutero não concordava com o que muitos na sua época estavam concluindo; que “sola fide”, somente pela fé, fosse algo fácil. Ele dizia que a tentação e a experiência sem dúvida nos ensinam que a fé é uma arte difícil e, conforme Timothy George, página 63, “a fé genuína e a verdadeira teologia são forjadas sobre a bigorna da tentação, porque só a experiência faz um teólogo”. 

O texto de Rm 1.17, “a justiça de Deus”, enchia a alma de Lutero de traumas e nada adiantavam suas penitencias, jejuns, sacrifícios, boas obras, pois todas as suas tentativas em ser aceito diante de Deus, de ser reconciliado pelas obras, eram em vão. Sua consciência estava cada vez mais atormentada. Ele mesmo afirmou: “Eu não amava, na verdade odiava aquele Deus que punia os pecadores, e com um murmurar monstruoso, silencioso, senão blasfemo, enfureci-me contra Deus”. [2] 

Foi nesse contexto histórico e religioso que um dia a luz de Deus veio à mente de Lutero e, pela graça de Deus, ele pôde entender que a “Justiça de Deus”, de Romanos 1.17, se revela no Evangelho, e que o Evangelho na realidade não é mais motivo para gerar em nós medo, pavor; mas é as boas notícias de que toda a justiça de Deus foi satisfeita na cruz, na pessoa bendita de Seu Filho e nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Agora, todo aquele que pela graça de Deus crê nessa verdade eterna é justificado, é justo diante de Deus, e considerado como se nunca houvesse cometido pecado. Essa é a grande mensagem do Evangelho: o justificado pela fé tem a vida eterna. Agora Lutero estava consciente de que o perdão era dom de Deus e não resultado de esforço da mente humana. 

Conceito de justificação na Idade Média 

Não podemos esquecer que o conceito de justificação que dominou tanto a teologia da era Patrística como a Medieval, era uma mistura de doutrina cristã e filosofia grega da divinização do ser. A Enciclopédia Histórico Teológica nos informa que “Pelágio, no século V substituiu a ideia de imputação pelo conceito menos severo de imitação. Ele argumentou que, como agentes livres e responsáveis, nascidos com a capacidade de não pecar, todas as pessoas, todavia, pecam concretamente, seguindo o exemplo de Adão. Pelágio recebeu a oposição de Agostinho e desde então seu conceito da possibilidade humana tem sofrido frequentes rejeições pela igreja ortodoxa (embora a noção tenha se mostrado repetitiva no liberalismo protestante)”. [3] O próprio Agostinho, embora tenha sido o grande defensor da graça soberana de Deus nos seus conflitos com Pelágio, entretanto cria na infusão da justiça de Cristo no pecador, na infusão da graça pelo sistema sacramental e penitencial da Igreja; e que a justificação era um processo iniciado no batismo (regeneração batismal).

Embora Lutero e sua teologia tenham sido grandemente influenciados por Agostinho, como ele mesmo diz: “Nossa teologia e Santo Agostinho estão em bom andamento e, graças a Deus, eles predominam em nossa universidade”, mais tarde, revendo a doutrina de Agostinho com relação à justificação, disse que “Agostinho chegou mais perto do sentido paulino do que todos os estudiosos, mas não alcançou Paulo. No começo eu devorava Agostinho, mas quando a porta para Paulo abriu-se e entendi o que era realmente a justificação pela fé, descartei-o". [4]

Lutero se separou da teologia agostiniana quando teve a revelação de Rm 1.17, principalmente a expressão “A justiça de Deus é revelada”. Agora Lutero estava convicto de que a justificação não era algo progressivo, e afirmou categoricamente que “sola fide justificate”, isto é, só a fé justifica. Portanto, não mais cria em uma justificação infundida, mas sim imputada pela fé somente. Para Agostinho e a tradição escolástica o sentido era “tornar justo (infusão), mas agora para Lutero o sentido paulino é “declarar justo” (imputação), pois a justiça não é nossa, não é inerente a nós, mas é colocada em nossa conta. Não é possível aceitar a doutrina católica romana da infusão da justiça, pois se realmente a justiça de Cristo foi infundida em nós, e não somente imputada, também devemos crer que nossos pecados não foram imputados em Cristo, mas sim infundido; isto é, inerente a Cristo, o que equivale dizer que Cristo não foi feito a semelhança de carne pecaminosa, mas que realmente foi infundido nEle o nosso pecado. Isto geraria uma aberração teológica, pois, tornaria Cristo desqualificado para ser uma oferta totalmente aceitável a Deus pelo pecado. Como Deus iria aceitar um pecador morrer pelos pecadores? Isso jamais satisfaria a Sua justiça, e conseqüentemente levaria Deus a nos salvar de uma maneira ilegal e imoral, o que é totalmente contrário ao Seu caráter santo. Lutero descreveu essa transação como uma “doce troca” entre Cristo e o pecador, exclamando com admiração, “Oh! doce troca! Oh! operação inescrutável! Oh! benefícios que ultrapassam todas as expectativas! Que a impiedade de muitos fosse oculta em apenas um justo, e que a justiça de um justificasse a muitos transgressores”, e então ele conclama: “aprenda Cristo e o aprenda crucificado, aprenda a orar a Ele, perdendo toda esperança em si mesmo e diga: Tu Senhor Jesus, és a minha justiça, e eu sou o teu pecado; tomaste em Ti mesmo o que não eras e deste-me o que não sou”. [5]

Nossa crise e nossa salvação digna do caráter santo de Deus 

Essa foi a experiência de Lutero após a sua grande crise existencial; sendo ela também, ainda que em menor grau, uma realidade em nossas vidas. Queremos fazer a vontade de Deus, mas na realidade não conseguimos. É o que diz o apóstolo Paulo em Rm 7:19: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço”. Muitas pessoas mal orientadas, quando passam por essa luta caem no desespero, depressão, ou entram pelo caminho do fanatismo religioso, que os leva a uma vida irreal, farisaica; pois o fanático fariseu é aquele que, consciente ou inconscientemente, procura convencer-se que é capaz de ganhar o favor de Deus, conquistar a aceitação plena em Deus; justificando-se através de obras. Quando alguém entra pelo caminho da justificação própria, torna-se um hipócrita, e, como sabemos, não foram os publicanos e nem os pecadores que crucificaram a Cristo, mas sim os fariseus hipócritas.

Lutero havia descoberto pela graça de Deus a mensagem central do Evangelho: as boas novas, de que Deus em Cristo justifica pela fé o pecador e, para poder ser justo e justificador dos que têm fé em Jesus, Cristo teve que encarnar, viver uma vida de obediência total até a morte e perfeita santidade e estar disposto a tomar sobre si “o castigo que nos traz a paz”; e, lá na cruz, experimentar a ira de Deus quando foi imputado nEle o nosso pecado para que pudéssemos ter uma salvação digna do caráter santo de Deus.

Portanto, agora podemos dizer que Cristo tornou-se pecado por nós, isto é, foi imputado nEle o nosso pecado para que nós pecadores pudéssemos ser aceitos como justos. Agora em Cristo temos uma posição de justiça. A justificação é, portanto, uma questão posicional; fomos colocados nesta posição diante de Deus por causa de Cristo, isto é imputação; não é uma questão moral, pois nós ainda não somos justos em nós mesmos. Fica plenamente claro não se tratar de uma infusão. Vários irmãos do passado fizeram referência a essa troca graciosa entre Cristo e o pecador. Na era Patrística podemos ver na carta a Diogneto (Séc. II) “Oh! Imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou com misericórdia, tomou sobre si os nossos pecados e enviou Seu filho para nos resgatar. O santo pelos ímpios; o inocente pelos maus; o justo pelos injustos; o incorruptível pelos corruptíveis; o imortal pelo mortal. De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados senão a sua justiça? Por meio de quem poderíamos ter sido justificados, nós injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus?” [6]

A pergunta que atormenta qualquer pessoa é: “De que maneira posso ser colocado em posição correta com Deus? Ou ainda: Como poderia escapar da ira vindoura, ou ao juízo santo de Deus? Para Lutero a única resposta é a “JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SOMENTE”, tendo como base unicamente a Palavra de Deus, pois uma fé cristã e real só pode existir com base na verdade bíblica. Como cristãos temos que acolher e crescer nessas verdades tendo a Bíblia como única base; mas também temos o dever de condenar qualquer doutrina que diminua a centralidade e a exclusividade de Cristo na salvação.

Questão com profundas e sérias implicações 

O ponto central e nevrálgico da Reforma foi a diferença entre “declarar a pessoa justa” (imputação), e “fazer a pessoa justa” (infusão). Essa não é meramente uma questão de semântica, mas de ponto de partida que vai definir nosso caminhar. Pela graça nos mantermos em Cristo, ou pelas obras em méritos humanos. Portanto, é uma questão de vida ou morte. Se o pecador é justificado através de uma declaração de Deus baseado nos méritos de Cristo e recebida pela fé somente, então esse pecador é declarado justo em Cristo. A justiça de Cristo, a vida de obediência perfeita até a morte e morte de cruz é creditada a seu favor; o resultado imediato é a paz com Deus como fruto da justificação. “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

Essa paz, essa reconciliação com Deus, leva-nos a comunhão e à intimidade no andar com Deus, e essa comunhão é transformadora, pois cada dia mais vamos sendo transformados a imagem de Jesus Cristo; isso é santificação. Somente os justificados pela fé podem ser santificados. Contrariamente, a teologia católica ensina a santificação como meio para a justificação. Isso seria como que “colocar os carros na frente dos bois”. O pecador é justificado por um processo de santificação durante toda a vida. Neste sentido, porém, nunca ninguém será justificado, pois ninguém terá uma vida de santificação perfeita que satisfaça o caráter santo, justo e perfeito de Deus. Deus em razão de Sua perfeita santidade exige obediência absoluta e perfeita santidade. Por isso Deus se fez homem na pessoa de Jesus, porque somente Deus poderia satisfazer a santidade de Deus.

O caráter santo e perfeito de Deus não permite que Ele exerça a misericórdia separada de Sua justiça, e nem a graça poderia reinar se a justiça de Deus não fosse satisfeita. Romanos 5:21 afirma esta verdade fazendo uma analogia entre o reino da morte e o reino da graça, pois assim como para que a morte entrasse na história do homem primeiro teve que haver pecado, assim também para que a graça pudesse ser dispensada a nós, primeiro teria que ser satisfeita a justiça de Deus. Portanto, Ele não poderia nos salvar sem satisfazer a Sua justiça. A Sua natureza santa não permitia passar por cima de nossos pecados; pois os nossos atos revelam o nosso caráter, e, para Deus, os fins não justificam os meios. Portanto, o ato de Deus nos salvar revelou o Seu caráter, e Ele não poderia nos salvar de uma maneira imoral, ou ilegal, mas teria que ser, como foi, uma maneira justa, santa e perfeita. Por isso em Romanos 3.26 diz que a cruz é a revelação da justiça de Deus. Foi o único meio de Deus demonstrar justiça e justificar o pecador, ser justo e justificador ao mesmo tempo.

A fé verdadeira que recebe a justificação é aquela que não olha para si mesmo, mas sim para a cruz de Cristo. Calvino com verdade afirma que “É somente a fé que justifica, mas a fé que justifica nunca está só”. Se as obras não justificam, também é verdade que a verdadeira justificação se manifesta em obras; é fato que o pecador justificado continua pecador, mas não escravo do pecado como antes. Agora, pela graça de Deus, tem poder de andar nas boas obras que Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2.10). Portanto, as obras não são as bases da justificação, mas sim as consequências, ou evidências delas, poderiamos dizer que a santificação é a justificação levada a sério.

Conclusão 

A história da humanidade parece oscilar como um pêndulo entre os extremos; muitas vezes o medo do legalismo nos leva ao antinomianismo (libertinagem) e o medo do antinomianismo nos leva ao legalismo. Parece ser impossível ter uma santidade livre e uma liberdade santa.

Para muitos, a justificação é uma mistura de fé e obras, como diz John F. Mac Artur Junior: “Onde o antinomianismo isola a justificação da santificação radicalmente, este erro mistura os dois aspectos da obra salvifica de Deus. O efeito é fazer da justificação um processo firmado na justiça defeituosa do crente, em vez de um ato declarativo de Deus baseado na justiça perfeita de Cristo”. [7]

Hoje vivemos dias semelhantes aos da Idade Média, onde a bíblia está sendo deixada de lado, onde não há ensinamento. Dias de verdadeira aversão a doutrina; onde nossa fé está baseada em experiências e tradições humanas. Por isso creio que somente uma reforma hoje, uma volta genuína e autêntica à Palavra de Deus, uma reciclagem na doutrina da graça, poderia nos salvar em uma hora de tanta confusão. Não podemos jogar 2.000 anos de história da Igreja pela janela, achando que Deus está começando algo novo conosco, pois ela é a história dos atos de Deus na história. Que Deus nos livre de tal pecado de presunção.


Bibliografia 

[1] Timothy George – Teologia dos Reformadores, Ed. Vida Nova, pág. 62
[2] Ibid – pág. 64
[3] Enciclopédia Histórico da Igreja Cristã – Editora Vida Nova, pág. 324
[4] George, ibid – pág. 70
[5] John Stott – A Cruz de Cristo, pág. 179 
[6] Padres Apologistas – Carta a Diogneto  Patrística, Edições Paulinas, pág. 27
[7] John F. Mac Artur Junior – Justificação Pela Fé Somente – Ed. Cultura Cristã, pág. 12 


Fonte: Comunidade Cristã de Maringá.