quinta-feira, 4 de junho de 2015

MISSÃO NA ÍNTEGRA - VIDA CRISTÃ RELEVANTE



Paulo Junior


[...] A sabedoria não poupa você de problemas. Tem muita gente que acha que se uma pessoa está passando por problema é porque ela errou em algum lugar. Eu vou te falar uma coisa com sinceridade: quando as coisas na minha vida começam a ficar muito fáceis eu penso logo que errei em algum lugar. Quando está tudo correndo muito tranquilo eu acredito ter errado em algum lugar. Então, nós vamos falar aqui sobre princípios, valores, tratando um pouco mais daquilo que são os aspectos subjetivos da nossa vida cristã.

A gente percebe que nos dias de hoje a Igreja está contaminada. Ela está contagiada por essa ideia pragmática, cartesiana, daquilo que são os resultados, a parte aparente da coisa. A Igreja está perdendo a sua característica subjetiva. E é bom a gente entender que a natureza da fé não está nos seus aspectos subjetivos. Sendo assim, embora a fé se traduza em ações objetivas, ela se fundamenta em valores subjetivos. A fé é a certeza das coisas que se não vêem (Hb 11.1).

Se perguntarmos a um grupo de pessoas com o que a fé se identifica mais, se com a confiança ou com o conhecimento, a maioria certamente responderá que a fé se identifica mais com a confiança, alegando que fé significa confiança. Acontece que fé não é confiança, FÉ É CONHECIMENTO! O testemunho da fé é a confiança, mas ela fundamenta-se no conhecimento. É por isso que fé está ficando uma coisa complicada pra muita gente, porque as pessoas estão tentando confiar em quem não conhecem.

Hoje, o que muita gente chama de fé na Igreja, na verdade não é fé, mas, sim, um desejo ardente; uma expectativa contundente. Podemos afirmar, então, que muitas pessoas não possuem fé, mas uma ardência de desejo; uma contundência de expectativa. Essas pessoas querem muito e projetam todos os seus desejos em quem pode realizá-los. Assim, não falta crendice na Igreja hodierna, ou seja, não faltam aquelas pessoas que acreditam que Deus pode fazer. Porém, faltam pessoas que conheçam quem Deus é.

Diante do exposto, vamos tratar um pouco sobre princípios; sobre fundamentos da nossa vida cristã; sobre aquilo que de fato é a vocação da Igreja - a parte mais invisível do processo.

Na Epístola aos Romanos está escrito: "Rogo-vos, pois, irmão, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Rm 12.1,2). Então, se eu quiser ter uma experiência com quem realmente Deus é, eu vou ter que ser transformado pela renovação do meu entendimento. Não se trata aqui de uma mudança de comportamento. É uma transformação de entendimento. 

Na vida cristã não estamos em busca de mudanças de comportamento, de estrutura ou de metodologia. Nós temos que buscar é uma transformação de entendimento. A transformação do nosso entendimento será traduzida numa evolução do comportamento. O texto em que o apóstolo Paulo diz que assim nós experimentaremos "qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2), eu comparo com o capítulo 4 da epístola que ele escreveu aos Efésios. Por que? Porque tanto na Epístola aos Romanos quanto na Epístola aos Efésios, Paulo primeiro faz uma fundamentação teológica da natureza da nossa fé, da nossa relação com Deus, da nossa identidade. Na Epístola aos Romanos, nos capítulos 1, 2, 3, 4 até o 11, Paulo vai falando daquilo que é o histórico humano, a natureza e a condição do homem, o fundamento da nossa fé, explica que é questão de fé e não de obras. Ele faz a mesma coisa na Epístola aos Efésios, só que de forma mais sucinta, de forma mais condensada. E aí ele parte de uma fundamentação subjetiva, teológica, daquilo que é o propósito eterno de Deus, a condição do homem, a relação do homem com Deus, de Deus com o homem, e transpõe isso para uma conotação prática: como é que nós vamos transformar todo esse aspecto subjetivo da nossa fé numa realidade; num testemunho objetivo. É interessante que o apóstolo Paulo faz essa transição usando o mesmo tipo de linguagem, quando ele diz: "Rogo-vos, pois...", ou seja, diante de toda argumentação dele, diante de todo aquele embasamento, diante de toda aquela revelação dos aspectos subjetivos da nossa vida, da nossa fé e da nossa relação com Deus, nós não temos outra opção. Então, Paulo não está fazendo um convite ou uma sugestão para a Igreja. Aquilo que ele está propondo agora como vida cristã não é uma proposta, não é nem mesmo um pedido. O que o apóstolo Paulo faz é uma convocação, a qual nós não temos como recusar. Esse "Rogo-vos, pois..." - portanto, uma vez posto, uma vez revelado - não nos dá outra opção, ou seja, é dessa forma que nós temos que viver. 

No capítulo 4 da Epístola aos Efésios, Paulo vai mostrando o que seria essa transformação; o que seria esse testemunho daquilo que é a minha convicção, meus fundamentos, princípios, e isso sendo traduzido de forma ativa. Paulo, escrevendo aos efésios (capítulo 4), fala que o propósito disso tudo é que a gente chegue à plena maturidade, "até que todos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulentamente" (Ef 4.13,14). A seguir, vem uma expressão meio que conclusiva, onde o apóstolo Paulo diz: "Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor" (Ef 4.15,16). Esse texto fala de maturidade, de plenitude. Assim sendo, uma missão só pode ser integral se o agente da missão for integral. 


Os discípulos não entendiam Deus em Jesus.
Por que muitas vezes a Igreja está se equivocando naquilo que é a sua missão? Porque a consciência de si própria não é integral; não é plena; não é absoluta. Muitas vezes o que a Igreja está fazendo, está fazendo segundo as suas carências, e não segundo as suas convicções. Então, quando eu me relaciono com Deus na perspectiva do que Ele pode, eu posso muito bem ser um crente que olha pra Deus na perspectiva do que eu preciso que Ele faça. Dessa forma, o que interessa para mim é que Deus se comporte como Deus na medida do que eu preciso que Ele realize. Assim, eu vou sempre ter uma visão de um Deus que pode, e aí eu vou sempre olhar pra Deus na perspectiva do que é Deus ao meu favor, e nunca na perspectiva do que é Deus através de mim. Os discípulos tiveram essa dificuldade. Quando Jesus vai se despedir dos seus discípulos, eles não conseguiam entender Deus Nele (Jesus). Os discípulos não tinham dificuldade nenhuma de entender Deus com Ele, mas tinham toda dificuldade de entender Deus Nele (Jesus). Paulo, então, está falando da imaturidade da Igreja (Ef 4.1-32), uma Igreja que é imatura porque se comporta como criança. Escrevendo aos Gálatas, Paulo diz que a Igreja se comporta como criança porque ela não tem consciência, ela só tem carência. Então, apesar da Igreja ser filho, se comporta como se fosse servo. Um bebê não ama a mãe, ele ama o leite - é uma relação de carência, sem nenhuma consciência. Um bebê não tem consciência da relação, ele só tem percepção da sua carência. E todo mundo que age pela carência, age segundo as suas conveniências. Da mesma forma, uma Igreja sem consciência vai agir de forma carente, e agindo de forma carente ela vai atuar de forma conveniente - ela vai fazer só o que lhe interessa pra que seja satisfeita a sua carência. A Igreja que age dessa forma não age por fé, não age por convicção, não age por revelação, ela age por desejo, por impressão, por percepção - ela percebe, ela deseja, ela observa, mas não conhece. E aí, o que muitas vezes nós estamos chamando de fé, é apenas uma expectativa muito forte; é um desejo muito ardente. 

Tem muita gente fervorosa na oração, mas não é porque ele crê ou porque ele conhece a Deus, mas, sim, porque precisa que Deus faça o que ele quer. Às vezes somos ardentes no louvor, mas aquilo não é louvor, aquilo é só uma babação que nós jogamos pra Deus achando que Ele é como aquelas caixinhas de música que damos corda e ela roda. E aí a gente fica atuando com Deus como se Ele fosse susceptível. A nítida impressão que nós temos depois que começamos algumas reuniões é de que a única parte não convertida da reunião da Igreja é Deus. A Igreja é convertida. Todo mundo sabe o que exatamente Deus tem que fazer, mas Ele não está convencido. Nós vamos dar uma ajuda; vamos cantar bastante pra Ele; vamos orar e Deus vai ficar sensibilizado; vamos fazer um jejum e Ele não vai ter como escapar. Aí, a hora que a gente colocar Deus no canto, a gente dá uma prensa Nele e Ele vai ter que fazer o que nós pagamos para que Ele faça. Nós viemos aqui e cantamos, fizemos tudo que o Senhor mandou, agora queremos receber - isso é carência. 

O texto de Efésios diz: "seguindo a verdade em amor..." (Ef 4.15). Não há verdade sem amor! A natureza da verdade, a essência da verdade, o espírito da verdade é o amor. Sem amor o que nós temos é uma realidade. Agora, o amor é que dá sentido, que dá natureza, que dá essência e que dá identidade à realidade. Paulo diz: "Eu oro para que vocês estejam arraigados e fundados em amor". Paulo não ora para que estejamos apoiados ou dependentes do amor, mas que nós sejamos gerados, originados do amor. Quem não conhece o amor não conhece a Deus e nem de Deus é conhecido. Aquele que não ama ainda está em trevas, anda como quem não sabe pra onde vai. Então, é essa verdade em amor que vai nos dar plenitude. Paulo está dizendo que o objetivo de Deus é que todos nós cheguemos à estatura completa de homem perfeito, que não sejamos mais meninos.

A Igreja não vai cumprir o seu propósito enquanto estivermos reunindo gente tão carente, tão mal resolvida. A Igreja precisa ser uma reunião de gente bem resolvida. Não é gente que explora Deus, mas é gente que conhece a Deus. Uma reunião de pessoas que não vê mais a Deus como Deus "a favor", mas agora conhece a Deus "através". Não somos mais meninos inconstantes, levados por qualquer vento de doutrina, enganados por qualquer forma de pensamento, mas gente inteira, gente completa, gente que alcançou maturidade, gente salva - e porque é salva só pensa agora em perder. Eu não prego mais salvação pra crente em minha igreja. Me recuso pregar salvação pra crente. Agora eu só prego perdição pra crente, pois crente não precisa saber como se salvar, crente precisa do Espírito Santo pra saber como se perder. O crente não tem que buscar com o Espírito Santo como ser salvo, mas buscar como se perder da melhor maneira. Quem deve estar preocupado como ser salvo é quem ainda não foi, mas quem já foi salvo deve estar preocupado agora como se perder, a fim de ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fp 2.5-8). Aquele que está em Cristo já não vive mais para si mesmo. O apóstolo Paulo está dizendo que essa verdade em amor (Ef 4.15) vai nos levar a crescer em tudo - isso é plenitude. Essa Igreja cresce na consciência , ela cresce na competência e ela cresce no cumprimento do seu propósito. Ela vai fazer uma missão integral porque ela é integral. Ela tem plena consciência da vontade de Deus. Ela não se ocupa de outra coisa a não ser o pleno cumprimento da vontade de Deus na sua vida.

Nós sempre estamos olhando as coisas mais pela perspectiva da carência do que pela perspectiva da consciência, da identidade, do propósito. Um dos Salmos mais conhecidos na Bíblia é o Salmo 23. Nós decoramos logo a primeira parte porque é mais fácil: "O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará" (Sl 23.1). Aí eu já penso na perspectiva da carência, na de que Deus sempre está fazendo alguma coisa por mim. Todavia, não é bem como pensamos ou queremos. Não vai me faltar nada porque Deus vai me fazer uma pessoa inteira. Ele vai me fazer passar todos os processos que me transformará numa pessoa completa. Então, Deus não vai me deixar faltar nada. O Senhor é o meu Pastor e não vai me deixar faltar nada, nem saúde e nem doença, não vai faltar quem me ajude ou quem me atrapalhe, não vai faltar alegria e nem tristeza... Não vai me faltar nada. Eu não vou ficar curioso de nada. Eu vou ser uma pessoa completa em toda e qualquer situação. O apóstolo Paulo disse: "...já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece" (Fl 4.11-13). Paulo se tornou um homem integral, completo, cheio. Contentamento é ser completo; é ter todo conteúdo revelado; é ter plenitude; é estar preenchido em todas as áreas, de modo que eu não faço nada por necessidade. Como Igreja do Senhor Jesus Cristo, não devemos fazer nada por necessidade, mas por fé. Então, tudo que eu fizer tem que ser na plena consciência de quem Deus é e de quem nós somos Nele e do que Ele quer revelar através de nós. Essa é a plenitude que nós precisamos buscar. Assim, a Igreja fará uma missão integral porque ela é uma Igreja integral. Ela não está focada em si; ela não está agindo para completar o que ainda não está completo. E Deus vai nos tornando  completos; Ele vai nos tornando plenos em tudo; não vai faltar nada em tua vida. No fim, você vai aprender a ser contente em toda e qualquer situação. Você vai ser contente com quem te aborrece tanto quanto com quem não te aborrece, porque Deus vai garantir que você vai ter os dois.

"...todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor" (Ef 4.16). Aqui Paulo está dizendo que é possível ter uma Igreja com quantidade e com qualidade. E que, na verdade, a Igreja com qualidade produz a sua quantidade. Então, é possível essa Igreja crescer no sentido quantitativo e, ao mesmo tempo, ser edificada na sua consciência, na sua maturidade, na consistência da sua identidade, da sua natureza e do exercício do seu ministério. A Palavra de Deus diz que "crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens" (Lc 2.52). Ou seja, Jesus aumentava em seu tamanho e, então, a Igreja tem que aumentar no tamanho, mas Ele crescia também em sabedoria e graça, ou seja, Jesus era transformado na Sua consciência e era, também, desenvolvido no conhecimento de Deus. O Seu corpo, a Sua alma e o Seu espírito cresciam, desenvolviam. Da mesma forma, a Igreja tem que crescer em tudo. Ela tem que crescer na sua relação com Deus; ela tem que crescer na sua relação consigo, na percepção de si mesma; e ela tem que crescer na sua relação com a sociedade, no sentido de aumentar, de expandir as suas áreas de atuação e de influência - crescer em tudo. Mas como é que se dá esse crescimento? Paulo diz que esse crescimento se dá na composição de dois elementos: o subjetivo e o objetivo. O subjetivo é um "...corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas..." . O objetivo é "...segundo a justa operação de cada parte". Paulo fala de empenho e compromisso, e ele também fala de desempenho e competência. A Igreja cresce em tudo na medida em que ela aplica a verdade em amor (Ef 4.15), ou seja, ela cuida bem dos seus aspectos relacionais e por isso ela executa bem seus aspectos ministeriais. Só que muitas vezes nós estamos achando que a Igreja cresce, ou que ela atua, ou que ela cumpre a sua vocação apenas na perspectiva do seu desempenho, e aí nós somos descuidados na perspectiva subjetiva do empenho, do compromisso e da relação. O que se percebe com isso é que estamos vivendo um tempo em que a Igreja está perdendo a percepção, a noção, a sensibilidade relacional do Evangelho. Nós não pregamos, não vivemos, não ensinamos, não comunicamos, não testemunhamos um Evangelho relacional. Nós estamos pregando o Evangelho apenas para mudar as pessoas de endereço, como se uma pessoa acreditando em Jesus e confessando o Seu nome não vai mais para o inferno. Então, a gente cumpre o papel apenas mudando as pessoas de endereço. A Igreja passou a ser uma locação. O conceito de Igreja na nossa cabeça passou a ser um endereço e não uma identidade. A Igreja passou a ser uma atividade, uma ocupação, e não uma convicção, um entendimento, uma certeza. Assim, nós pensamos muitas vezes que a Igreja cumpre a sua vocação na medida em que ela exerce alguma atividade, e não na medida em que ela traduz as suas convicções naquilo que ela opera. 

Temos que entender que a Igreja é salva pela graça, mediante a fé para as boas obras. Nós somos, cremos e fazemos, ou seja, nós cremos naquilo que Deus diz que nós somos, e porque nós temos certeza absoluta de quem nós somos, nós agimos conforme aquilo que somos, de modo que aquilo que a Igreja vai fazer na sua missão integral é pra traduzir a integralidade das suas convicções a respeito de si mesma, ou seja, a Igreja não faz nada pela sua carência, mas ela faz tudo pela consciência de quem ela é como agente da revelação do amor de Deus na sociedade. A Igreja não se ocupa de si, ela se ocupa integralmente dos outros, porque ela não age de acordo com a sua carência, de modo que essa Igreja não pode crescer de fora pra dentro, ela cresce de dentro pra fora, ela se desenvolve. Então, essa Igreja só cresce, só se expande por multiplicação, e não por adição. Ela não cresce porque ela convoca, ela cresce porque ela influencia. Ela não cresce porque muda as pessoas de endereço, ela cresce porque ajuda as pessoas a serem transformadas no seu entendimento. A Igreja é um agente de transformação social.


Há quem diga que a Igreja já cumpre um papel de afetação social quando ela evangeliza. A Igreja evangelizou e a pessoa se converteu, pronto, ela cumpriu o papel dela, pois essa pessoa agora vai mudar de vida. Ela não vai gastar mais dinheiro com prostituição, não vai mais viver uma vida promíscua, então mudou, e, sendo assim, já houve uma intervenção. A percepção de quem pensa assim é de uma mudança, não é de uma transformação. Não é a forma como a Igreja influencia, como ela inspira, como ela traz uma referência, mas simplesmente uma forma como a Igreja agrega, ajunta, reúne, amealha, separa. Muitas vezes a Igreja está fazendo um vampirismo social, ou seja, em vez da Igreja dar sangue, oferecer a vida para sociedade, ela vai lá e saqueia a vida da sociedade. A Igreja faz uma campanha evangelística, converte os melhores cidadãos da sociedade, tendo em vista que esses cidadãos, apesar da prática do pecado, estavam na ignorância, e, depois de arrancá-los da sociedade, os põe para trabalhar para a Igreja. Dessa forma, foi feito um vampirismo - o cidadão foi roubado da sociedade. Nós fazemos uma campanha evangelística numa escola e cometemos vampirismo, pois se convertem os melhores alunos dessa escola - os mais bandidos, os mais pervertidos, mas que de alguma forma exerciam posições de liderança - e, após eles aceitarem a Jesus, após se converterem, o que é que nós fazemos? Nós os tiramos da escola e os colocamos à disposição da Igreja, a fim de que eles fiquem ocupados com as atividades da Igreja, como se o grande carente da sociedade fosse a Igreja. É por isso que a Igreja não está fazendo missão integral, pois nós saqueamos as pessoas, nós mudamos as pessoas de endereço sem fazer com que elas sejam transformadas no entendimento. Então, elas poderiam continuar no endereço em que estavam e, de alguma forma, afetar a realidade daquele lugar. 

Nós pregamos o Evangelho hoje apenas para mudar as pessoas de endereço porque nós achamos que aceitar a Jesus é não ir para o inferno. Como ninguém quer ir para o inferno, nós pregamos que se as pessoas não aceitarem a Jesus elas vão para o inferno. Deixe eu te dar uma notícia: ninguém vai para o inferno. Uma pessoa que vai para o inferno, onde é que ela estava? Que condição espiritual é essa que nós descobrimos que se uma pessoa não é convertida, não tem consciência de Deus, não conhece a Deus, não tem a vida transformada, ela ainda vai para o inferno? Que condição é essa? Acontece que as pessoas não vão para o inferno. Elas saem dele. A consciência cristã é para a pessoa não continuar vivendo no inferno. Então, não se trata apenas de uma mudança de endereço, mas de uma transformação de entendimento, de consciência, de relação. Então, Paulo está dizendo que o aspecto subjetivo da vida da Igreja é a relação. E muitas vezes nós não estamos pregando um Evangelho que tem natureza, que tem essência, que tem vocação, que tem discernimento, que tem percepção relacional. As relações hoje não contam. O que conta é o desempenho, o resultado. O ministério hoje é avaliado pelo seu quantitativo. As pessoas perguntam quantos membros há na sua igreja, qual o tamanho dela. Se a igreja da pessoa é grande, então está tudo certo, o ministério dele é bom, é bem sucedido. 

De que tamanho é uma Igreja que pode mudar uma cidade? Uma Igreja que pode mudar a vida de uma cidade possui dois ou três membros. O Senhor Jesus entendia que se Ele mandasse dois homens para uma cidade e esses homens tivessem uma relação que traduzisse o conhecimento deles de Deus, esses dois homens na sua relação poderiam transformar a vida de uma cidade. A nossa questão hoje é que nós temos muitas estratégias, muitas metodologias, muitas propostas, mas a nossa relação é ruim. A nossa consciência relacional do Evangelho é ruim, porque nós fomos subtraindo, nós fomos retirando do Evangelho todos os aspectos relacionais. Vamos usar algumas expressões clássicas da nossa salvação, da nossa identidade, da nossa natureza do Evangelho: SALVAI-VOS! Quando nós escutamos que os discípulos "com muitas palavras isto testificava, e os exortava, dizendo Salvai-vos..." (Atos 2.40), nós pensamos logo assim: SALVA-TE! Porém, lá não está falando SALVA-TE, mas, sim, SALVAI-VOS uns aos outros. E salvai-vos do que? O resumo do Evangelho para aqueles discípulos, o conjunto, o que reunia tudo era: salvai-vos da perversidade dessa geração ou dessa geração perversa. Se uma geração é caracterizada pela perversidade, a salvação está na demonstração do nosso amor na relação. Então, a Igreja será um agente de transformação social na medida em que apresentar para a sociedade uma relação saudável - pessoas que se amam e que compartilham a vida umas com as outras. Essa seria a melhor mensagem. A Igreja pode começar a partir de dois.


Quando Deus decidiu encher o mundo com a Sua glória, se a questão fosse encher no sentido quantitativo, bastaria Deus ter feito um Batalhão de Adãos e Evas. Todavia, a proposta de Deus era mostrar para nós que é possível dominar a Terra e enchê-la com a glória a partir de uma relação. Mas onde não há uma relação não há expressão de quem Deus é. Deus não se revela através de um indivíduo. Deus não se revela através da individualidade porque para que haja revelação de quem Deus é tem que haver relação. Por isso que só onde estão dois ou três em comunhão aí Deus é. Um indivíduo pode dizer o que Deus pode, mas só uma relação pode revelar quem Deus é. Para revelar o que Deus pode não é preciso muita coisa - um canarinho e um papagaio conseguem fazer isso. Você sabe qual a diferença entre um canarinho e um líder de louvor? Você sabe qual a diferença entre um papagaio e um pregador? São muitas. Quase todas a favor do canarinho e do papagaio. O líder de louvor e o pregador levam poucas vantagens. Aliás, acho que só tem uma vantagem, mas é a que faz toda diferença. O canarinho leva vantagem em quase tudo, pois você nunca viu um canarinho, por exemplo, reclamando porque o outro não chegou no horário para o ensaio. Você nunca viu um canarinho reclamando que ele está cantando e ninguém está prestando atenção. Você nunca viu um canarinho aborrecido ou nervoso porque o outro entrou fora do tom e comprometeu o desempenho dele. Aliás, canarinho quanto mais está triste mais ele canta. Então, pense se o nosso louvor fosse conduzido por um coral de canarinhos. Seria uma maravilha. Não teríamos que marcar ensaio, pois o canarinho já entra no tom, já sabe o que vai fazer, não fica nervoso, se algum não vier ninguém vai se irritar. Nenhum canarinho vai dizer para outro que faltou ao ensaio que ele não vai cantar. Entre os canários não existe essa crise; essa paranóia. E papagaio? Já pensou pôr um papagaio para pregar? Você ensina uma doutrina pra ele e ele repete aquilo pelo resto da vida - não inventa doutrina, não cria heresia, não forma denominação. O papagaio vai lá e prega o que tem que ser pregado e pronto. Você manda o papagaio cantar o hino nacional e ele canta certinho, sem inventar nada. Mas por que não são os canários e nem são os papagaios? Porque eles vão ter tudo isso, mas não vão ter a consciência da relação. Eles fazem melhor do que nós, mas não têm a consciência de quem Deus é, quem eles são e quem são as pessoas afetadas por aquilo que eles estão fazendo. Eles não têm consciência relacional. Por isso eles mostram o poder de Deus, mas não possuem a capacidade de revelar quem Deus é. E para mostrar o poder de Deus até Satanás serve, porque Paulo escreveu aos romanos que os vasos de ira foram levantados para revelar o poder de Deus. Todavia, nós fomos levantados para revelar a glória de Deus. 

A Igreja não está no mundo para mostrar o que Deus pode, mas para mostrar quem Deus é. E a tradução de quem Deus é está na qualidade das nossas relações; na forma como nós temos consciência uns dos outros e na forma como nós vivenciamos as nossas convicções de forma relacional. Mas na medida em que a Igreja foi perdendo essa consciência relacional, ela se tornou num ambiente de paralelismos espirituais. A Igreja de hoje, então, está bem para o que está escrito no livro do profeta Isaías, capítulos 58 e 59, onde Deus diz para que seja falado qual é a maldição e qual é a abominação do Seu povo. A maldição e a abominação do povo de Deus hoje é que ele gosta de ler a Bíblia, gosta de umas reuniões bem avivadas, gosta de cantar, gosta de procurar a Deus para saber qual seja a Sua vontade, gosta de fazer jejuns prolongados, gosta de teatros religiosos, enfim, gosta de tudo do que a igreja está cheia. Só que está sendo percebido que isso não está funcionando. E por que isso não está funcionando? Por que isso não está sendo suficiente? E Deus provavelmente responde a essas perguntas dizendo que é porque CADA UM ESTÁ PROCURANDO O SEU PRÓPRIO INTERESSE. 

Há um paralelismo, porque nós estamos ensinando a Igreja a buscar esse tipo de salvação, dizendo: "SALVA-TE! Olhe pra Deus, meu irmão! Olhe pra Deus! Não olhe pra mais ninguém! Olhe apenas para Deus". Estamos ensinando o povo a resolver o seu problema olhando pra Deus; o Deus que pode fazer por ele, mas não o Deus que quer se revelar através dele. E se é Deus que quer se revelar através de mim, então a relação conta tanto quanto a relação que eu tenho com Ele. Porque o cumprimento da vontade de Deus não está em que nós o amemos, mas está na consciência de que Ele nos amou, e ela se cumpre na forma como nós amamos o outro. Deus não nos chamou para amá-Lo; Deus não nos fez para amá-Lo; Deus nos fez para revelar quem Ele é; para traduzir isso numa relação. Deus não formou um povo a partir da Sua carência de ser reconhecido, porque o que Deus queria formar era uma família. Quando Deus fez uma promessa para Abraão, Ele não disse que todos os indivíduos da Terra seriam abençoados - se Ele falasse que todos os indivíduos seriam abençoados, as famílias também seriam. Mas Deus disse para Abraaão: "...em ti serão abençoadas todas as famílias da terra" (Gn 12.3). As FAMÍLIAS serão abençoadas. Porque Deus não estaria abençoando INDIVÍDUOS, mas abençoando RELAÇÕES. E nós estamos perdendo isso. Não há uma perspectiva relacional. Nós conseguimos fazer a oração que o Senhor Jesus nos ensinou sem nenhuma perspectiva relacional. Nós fazemos tudo numa perspectiva de "SALVA-TE A TI MESMO!".

E o dízimo? Tudo o que nós temos no Velho Testamento, que é a Lei, na verdade era um aio - o aio é um tutor. Aquilo serve de instrução mínima enquanto não há revelação. É brincadeira o que fizemos com o dízimo. Nós fizemos do dízimo uma taxa. A gente não consegue olhar para o Velho Testamento e extrair dele um código relacional. A gente consegue encontrar no Velho Testamento uma lei de teor inclusivo, ou seja, é pra ser incluído, e não pra ser vivenciado em uma relação. O dízimo tinha teor relacional e não institucional. O dízimo era uma forma de exercer equidade. Porque não era um dízimo de dinheiro, era um dízimo de relação.Tinha uma família sacerdotal pra onze famílias. Se todas as famílias contribuissem com os seus dízimos, a família que cuidava da parte espiritual do povo viveria com a média das famílias. Então, a tribo sacerdotal não iria ser a mais rica nem a mais pobre, porque aquilo dava uma média. Sendo assim, um pastor não deveria se preocupar em cuidar mais do que de umas dez ou doze famílias. E cada vez que chegasse a esse tanto ele iria colocar mais gente para que todos fossem atendidos de forma igual. Porque nós teríamos uma distribuição de renda para que a relação fosse boa. Isso iria evitar essa criação de impérios e de domínios. Há quem exija o pagamento do dízimo, mas ele não faz o dízimo do ministério. 

Quando a Palavra de Deus diz "SANTIFICAI-VOS" o que é que a gente pensa? Pensamos: SANTIFICA-TE, porque sem salvação ninguém verá o Senhor. Santificação é por que vimos Deus ou por que queremos ver Deus? Santificação é pra ver Deus ou pra que Deus seja visto? O crente tem que ser santo por que ele viu Deus ou por que ele quer ver Deus? Tem jeito da pessoa ser santa sem ter visto Deus? Que santidade tem uma pessoa se ela nunca viu Deus? Santidade não é para que um santo veja Deus. Uma pessoa só é santa porque viu Deus. E porque ela viu Deus, ela quer que Deus seja visto. De modo que nós ensinamos nossos filhos a serem santos não porque nós queremos que eles vejam Deus, mas para que Deus seja visto através deles. O rapaz vai ter santidade no namoro não é porque ele está querendo se livrar daquela endemoninhada para ele ver Deus. Ele não vai combater a namorada para ele ver Deus. Ele vai combater ele mesmo, para que a namorada dele veja Deus. Porque santidade não é a luta que eu tenho contra os outros para que eu seja salvo, mas a luta que eu tenho contra mim para que os outros sejam salvos. Não é a forma como eu me preservo para que eu veja a Deus, mas é a forma como eu me entrego para que os outros vejam.

"ENCHEI-VOS!". Entre uma garrafa cheia de água e um copo vazio, qual traduz melhor o verbo encher? Quase todo mundo responde que é o copo vazio. Aí fica a pergunta: o que um copo vazio pode encher? O copo vazio, com certeza, não possui a capacidade de encher nada. Nesse caso, a garrafa cheia de água pode traduzir o verbo encher, pois ela pode encher o copo vazio. Então, o que seria a ordem "ENCHEI-VOS"? Para responder a essa pergunta precisamos entender que ninguém morre asfixiado por falta de ar. Quando uma pessoa inspira o ar várias vezes e depois tem as suas vias aéreas obstruídas por muito tempo, ela certamente morrerá asfixiada, e morrerá com os pulmões cheios de ar. Logo, o que matou essa pessoa não foi o fato dela ter inspirado oxigênio, mas o fato  dela ter sido impedida de expirá-lo, ou seja, ela morreu porque perdeu a capacidade de expirar o que ela inspirou. Quando a Igreja perde a capacidade de expirar, aquilo que ela inspirou começa a contaminá-la. A Igreja está sendo contaminada por aquilo que ela inspirou. E a Igreja não está percebendo que aquilo que ela inspirou foi aquilo que o Senhor Jesus Cristo expirou. Nós somos inspirados na expiração de Cristo, porque Cristo é, em tese, Aquele que expirou para salvar os irmãos. Assim, Cristo é Aquele que foi ungido para ser oferta pela salvação dos irmãos. Então, "...Está consumado. E, tendo dito isso, expirou" (Jo 19.30). Onde está a consumação do ministério do Senhor Jesus Cristo? Na forma como Ele inspirou. Ele se inspirou no Pai que expirou em nós. E Ele se inspirou na forma como o Pai se expirou em favor de nós. E agora na Sua expiração nós nos inspiramos para, também, podermos expirar. E expirar é morrer, é dar... Por isso que é ENCHEI-VOS, ou seja, expirando, soprando, falando. Não é só inspirar, inspirar e inspirar, apenas tomando, tirando, subtraindo. O que vai inspirar as pessoas é a forma como nós expiramos. Agora, nós não vamos conseguir expirar se não tivermos a consciência de que já estamos cheios, que já temos tudo. Se nós não formos pessoas bem resolvidas vamos estar sempre trabalhando pra receber um pouco mais. E é por isso nós estamos sempre atrasados para oferecer o que nós temos para oferecer. 

O Senhor Jesus diz assim: "...buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça..." (Mt 6.33). O reino de Deus é paz, justiça e alegria no Espírito Santo. Busque o reino de Deus e a sua justiça e todas as demais coisas serão acrescentadas. A gente procura esse versículo pelo "todas as coisas serão acrescentadas" e não pelo "reino de Deus e a sua justiça". Então, tem gente que acha que encontrou uma forma de ter todas as coisas acrescentadas. Dessa forma, o versículo fica ferido na sua essência, porque a pessoa diz que já sabe que se ela quiser que todas as coisas lhes sejam acrescentadas basta procurar o reino de Deus e a sua justiça. Porém, não é isso que a Bíblia está dizendo. A Bíblia está dizendo: ocupe-se do reino e da sua justiça. Porque só quem tem a consciência de que todas as coisas já foram dadas pode ser justo. Por isso a Palavra de Deus diz que o justo viverá da fé (Hc 2.4; Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38). Não é o crente que vai viver da fé - o crente vai viver das crenças. Só quem conhece o amor de Deus; só quem conhece a provisão de Deus; só quem conhece a fidelidade de Deus; só quem tem uma relação com Deus e só quem crê de forma absoluta na suficiência desse amor; só quem tem uma relação com o amor de Deus consegue ser justo, porque não tem medo. O que nos impede de sermos justos? A ansiedade. E o que é ansiedade? É medo. E o que é medo? É a falta de conhecimento de Deus. Mas o perfeito conhecimento do amor de Deus lança fora todo o medo. Então, se não há medo no meu coração porque eu conheço perfeitamente, plenamente e integralmente o amor de Deus, não há porque  ter medo. E se não há porque ter medo eu consigo ser justo. Por que a Igreja não faz justiça? Porque tem medo. Medo de que vá faltar pra ela. Medo de que não vá dar certo, ou porque ela não sabe como será o futuro. Por que as famílias hoje não querem ter filhos? Porque têm medo. Por que os profissionais não querem se dedicar a operar na sociedade de forma eficaz? Porque têm medo. 


O que está fazendo com que os templos fiquem cheios? Gratidão ou ambição? No caso do Senhor Jesus, quem levou Ele para o deserto foi o Espírito Santo. Porém, quem levou o Senhor Jesus para o monte e para o templo foi Satanás. O Espírito Santo levou o Senhor Jesus para o deserto e Satanás O levou para o monte e para o templo. E lá no monte Satanás falou com o Senhor Jesus tudo o que Ele podia receber. Por que os crentes vão para o monte hoje em dia? Eles vão para o monte como Abraão, para sacrificar o que tem? Ou será que é para pedir o que não tem? Quem está indo para os montes hoje em dia, os crentes ou os justos? A gente não deveria querer saber quantos crentes há em uma cidade, mas, sim, quantos justos. Porque membros da Igreja não são os crentes; membros da Igreja são os justos. Então, devemos perguntar a um irmão se ele é justo, não se ele é crente. Isso porque o reino de Deus é um reino de equidade. E o que é equidade? É a justiça feita em favor do outro. Quando Deus quer traduzir justiça ele traduz por equidade, que é a cessão do direito. A Bíblia diz que nos últimos dias "...por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará" (Mt 24.12) - Aqui está incluída as comunidades religiosas. Por que as pessoas vão estar frias no amor? Por causa da maldade? Por causa da impiedade? Não! O mundo não vai ficar sem amor porque as pessoas vão ficar ruins. O mundo será esvaziado de amor porque as pessoas vão se tornar boas, e tão boas que elas vão achar que têm todo direito. O mundo está se enchendo de pessoas que estão vivendo para alcançar uma forma de ter direito. Então, as pessoas não fazem as coisas porque amam, elas fazem as coisas para terem direito. Sabe por que muitas vezes algumas pessoas cantam? Para terem o direito de serem abençoadas. Sabe por que muita gente ora? Para ter o direito de ser abençoada. Você sabe por que muita gente é crente? Para ter o direito de ser abençoada. Agora, você sabe para que é a fé? A fé é para fazer justiça, porque ninguém consegue ser justo se não tiver fé. Fé no quê? No amor incondicional de Deus. A fé, então, não é para mover Deus. Esse negócio de dizer que a fé move o braço de Deus está errado. Se a fé fosse para mover Deus, quando Pedro estava andando sobre as águas e duvidou, Jesus é quem teria afundado. Dessa forma, toda vez que eu fosse incrédulo, Deus afundaria, e ficaria clamando: "Por favor, cante um hino. Faça uma campanha, pois eu não sei o que faço com a humanidade, me dê uma ideia. Faça uma campanha porque hoje eu amanheci sem saber o que faço nem com seu filho; ore aí para eu saber o que devo fazer com esse menino. Não sei o que eu faço com a tua vida, ore e me dê uma ideia. Amanheci perdido hoje". Não, a fé não é para mover o braço de Deus. A fé é: vendo, conhecendo, experimentando como o braço de Deus se move, o meu move igual. Então, fé não é para Deus amar a minha esposa; a fé é para eu conseguir amá-la do mesmo jeito que Deus a ama. A gente ora não é porque a nossa oração vai fazer Deus mover. A nossa oração é o nosso movimento de amor em favor das pessoas. Eu não oro porque acredito que Deus pode fazer. Eu oro porque quero fazer parte daquilo que Deus vai fazer em favor das pessoas. Então, eu quero que o que Deus vai fazer seja através, e não apenas em favor de. 

Quando o Senhor Jesus olha para a cidade Ele diz: "Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara, que envie obreiros para a sua seara" (Lc 10.2). Jesus não mandou ninguém ir para a Igreja, mas Ele mandou a Igreja ir para a cidade. E esse evangelho nosso que privilegia o desempenho sem ter consciência da relação está estimulando as pessoas em suas competências sem trabalhar as pessoas em suas consciências. Então, esse corpo, que é a Igreja, tem que ser bem ajustado para que no exercício de cada função se possa trabalhar a relação para estimular a ação. Porque essa ação sem consciência da relação está provocando uma distensão. Sendo assim, estamos exercitando os músculos sem fortalecermos os tendões. Cada vez que a Igreja opera e os relacionamentos são ruins, ela não consegue suportar a pressão do seu próprio desempenho. É porque a Igreja está funcionando na plenitude da sua capacidade, mas na fragilidade da sua consciência, e isso está provocando rupturas. Aí ela revela muito poder e nenhuma glória. E o que vai fazer a sociedade crer não é o poder, é a glória. É a qualidade da nossa relação. É o que a gente reparte, não o que a gente propõe. Não é o impacto da nossa ação, mas a coerência, a contundência do nosso compromisso. Nós agimos de forma impactante quando estamos compromissados integralmente com a sociedade. A Igreja não é a comunidade dos que trabalham para a Igreja. A Igreja é a comunidade dos que trabalham para a cidade. Ninguém precisa trabalhar para a Igreja, porque a Igreja não é o fim, ela é o meio. Assim, nós trabalhamos com a Igreja e na Igreja para a cidade. Nós, como Igreja, não trabalhamos para nós, pois nós não somos o fim, nós somos o meio. E muitos ministérios estão transformando a Igreja no fim, como se a Igreja precisasse do nosso serviço, sendo que Deus é que dá o crescimento; é o Senhor Jesus que edifica a Igreja. Nós não viemos aqui para contemplar a satisfação das nossas necesssidades. 


Quero concluir com o que está escrito no livro do profeta Isaías: "Como a mulher grávida, quando está próxima a sua hora, tem dores de parto, e dá gritos nas suas dores, assim fomos nós diante de Ti, ó SENHOR! Bem concebemos nós e tivemos dores de parto, porém demos à luz o vento; livramento não trouxemos à terra, nem caíram os moradores do mundo" (Is 26.17,18). O interessante é que o vento é uma figura do Espírito. Então, o que está acontecendo com a gente? Muitas vezes nós estamos vivendo todo processo de quem está grávida. Os sintomas da Igreja são sintomas de quem está grávida: dores, contrações, dilatação abdominal, etc. Aí a gente fica pensando que a Igreja está grávida, mas ela não está grávida, ela está apenas com uma cólica. E geralmente uma cólica por aquilo que ela engoliu e não expeliu. Então, aquilo vai produzindo uma fermentação. O texto de Isaías está dizendo literalmente que a Igreja passou por todos os processos de uma gravidez, mas, no fim, em vez daquilo ser um parto, em vez dela parir gente, pessoas, homens, ela soltou gazes. Aqueles grandes moinhos eólicos parecem grandes ventiladores, mas só parecem. Há muita coisa que se parece com a Igreja, mas não é a Igreja. A aparência é igual, o comportamento é igual, a atividade é igual, as contrações e as dores são iguais, mas o resultado é totalmente diferente. Enquanto um ventilador consome energia para produzir vento, um moinho eólico absolve o vento para produzir energia de trabalho. Enquanto um ventilador consome trabalho para produzir vento, um moinho eólico capta o vento para produzir trabalho. E nós estamos tentando usar trabalho para produzir espírito, como se a Igreja fosse uma usina de espiritualidade. Sendo que a verdadeira espiritualidade não está na forma como nós produzimos expressões espirituais, mas a verdadeira espiritualidade está na forma como nós produzimos expressões humanas, porque nós temos que ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que sendo em forma de Deus, se esvaziou para ser achado em figura humana (Fp 2.6,7). Então, espiritualidade não é o ser humano se esforçando para ser espiritual. Espiritualidade é o ser espiritual se esforçando pra ser humano. Porque tudo que nasce da carne é carne e para nada aproveita. Assim, não há nada que o homem faça que seja de proveito espiritual. Não há nenhum esforço humano que seja de proveito espiritual, porque da carne nós vamos colher só corrupção. Por isso que em Isaías está dizendo que a Igreja produziu gazes (Is 26.17,18), porque foi um esforço carnal para produzir coisas espirituais, mas saiu pelo lado errado, e saiu coisa fedorenta, saiu contaminação. Não saiu gente, não saíram pessoas, saíram imitações de coisas espirituais, sendo que a espiritualidade é como nós recebemos do Espírito e transformamos isso em gente, em justiça humana, justiça divina aplicada aos homens, de modo a termos uma cidade mais justa, porque dentro dela vivem pessoas justas e não apenas crentes. O povo vai passar na nossa cidade e vai saber que ali tem um povo justo, que faz justiça , e não que reivindica justiça. A Igreja fica na posição como se ela que tivesse ser defendida. Haja vista essa coisa aí que estamos vendo do movimento gay. Do jeito que a Igreja está se comportando fica parecendo que nós temos medo dos crentes virarem gays. Fica parecendo que se todo mundo resolver virar gay, os nossos filhos também vão virar gays. A integridade da Igreja está comprometida. Nós temos uma sociedade à nossa volta, gemendo desesperada, como quem está para dar à luz, à espera de que os filhos de Deus se revelem. Era pra ter mais gente com crise de identidade, se não fosse a misericórdia de Deus. É tempo da gente se levantar e fazermos justiça. 

Quando Paulo escreve aos Coríntios ele diz: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões..." (1 Co 11.17,18). E quando ele estava falando de reunião, estava falando de todo o tipo de reunião: dos Cultos, da reunião de trabalho, da reunião de casais, qualquer reunião. Nossas reuniões estão fazendo mais mal do que bem. E sabe por que? Porque Paulo diz que quando nos reunimos é para dissensões, para comermos o nosso próprio pão. Nós estamos nos reunindo pela fome e não pela nossa consciência. E essa falta de consciência relacional é que está fazendo com que as pessoas fiquem fracas, doentes e moribundas. Toda forma de patologia que nós temos hoje, seja emocional ou espiritual, no meio da sociedade e da Igreja, é porque as pessoas estão vendo umas as outras comendo o seu próprio pão sem nenhuma noção de relação. Porque nós colocamos em nossa cabeça de que a Ceia que o Senhor Jesus nos ensinou era para comer, e não para repartir. A Ceia nunca foi para ser comida. Paulo disse que para comer por comer todos poderiam ter comido em casa. Mas quando a gente se reúne não é para comer, e sim para repartir. O espírito da Ceia não é comer. Comer para matar a fome se resolve em casa. O espírito da Ceia é para quem não se reuniu por causa da fome, mas para repartir. De modo que quando "o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse:  Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim" (1 Co 11.23,24). E nós ficamos pensando que fazer em memória do Senhor Jesus é comer. Porém, fazer em memória do Senhor Jesus é repartir. Os discípulos no caminho de Emaús estavam cegos. Cegos porque as suas expectativas haviam sido frustradas. O Senhor Jesus andou com eles e eles nem conseguiram ver que o Senhor Jesus estava com eles, pois eles estavam cegos e desapontados por suas expectativas. O Senhor Jesus sentou com eles e depois que deu graças partiu o pão. A Bíblia diz que quando o Senhor Jesus partiu o pão os olhos deles foram abertos - porque o que abre os olhos das pessoas não é ver gente comendo. O que abre os olhos das pessoas é ver gente repartindo. A sociedade está cega porque ela continua vendo a gente comendo, mas ela ainda não viu a gente repartir. E quando os olhos dos discípulos foram abertos, o Senhor Jesus nem ficou para comer. 


Você pode até ensinar um cachorro a se comportar como crente, mas no fim ele vai continuar sendo um cachorro. Ele muda o comportamento, mas ele não muda a sua natureza. A questão da Igreja não é de ordem, é de natureza e de ordem. Nós vamos conseguir colocar ordem se a gente conseguir entender a nossa natureza. Nós estamos enchendo as nossas reuniões de cachorros que oram. Tem um vídeo em que um cachorro foi ensinado a se comportar como um crente. O cachorro não está interessado em perdoar, mas sim em comer. Ele não tem a menor consciência da relação, mas ele sabe exatamente como alcançar o benefício. O cachorro aprendeu a  ficar na posição semelhante a quem está orando e esperar o "amém" do seu dono para depois poder comer (veja na foto). É assim que muitas vezes nós estamos ensinando a Igreja. Estamos ensinando a Igreja a orar pra ser abençoada, a cantar pra ser abençoada, mas não estamos ensinando a Igreja a repartir. Eu cresci em uma Igreja em que a Ceia era usada para fazer juízo, e não pra trazer salvação. O Pastor dizia: "Agora, pois, examine-se o homem a si mesmo". E eu pensava que examinar-se era o seguinte: eu só vou poder comer se eu não tiver feito nada de errado. E aí a Ceia que era para traduzir uma relação, começou a ser um instrumento de alcançar a salvação. Porque quando um cidadão chega à conclusão de que ele  finalmente pode comer porque ele examinou o coração dele e ele acha que não tem nada de errado, e agora ele tem o direito de comer porque ele não achou nada de errado... Isso é ensino de demônio! Quem é que pode comer da Ceia só porque examinou o coração e não achou nada de errrado? Examinar o coração é para não comer e beber sem discernir a relação. É não comer e beber pela minha própria necessidade. É não comer e beber sem antes repartir. É não comer e beber sem antes ver o outro. Mas eu aprendi naquela igreja dessa forma: "Olha, você examine-se, porque aí se você não tem nada...". E eu ficava com o pão na mão, e com um dilema, porque eu sabia que tinha feito alguma coisa de errado. Diante de Deus eu não podia comer. Mas os presbíteros também estavam de olho. Eles viam o pão na mão da gente e ficavam nos olhando. Eu pensava: "Agora eu tenho um drama. Se eu comer, vou para o inferno. Se eu não comer, vou para o inferno de qualquer jeito, porque se eu comer Deus me manda para o inferno, e se eu não comer os líderes da Igreja me mandam para o inferno." Então, estava resolvido, e eu comia. Porque os líderes da Igreja iriam me mandar para o inferno na hora, mas Deus só iria me mandar depois. A Ceia não é para comer. A Ceia é para repartir. 

Voltando a falar sobre o vídeo em que um cachorro aparece como se estivesse orando com o seu dono, observa-se que acontece como muitas vezes acontece entre os crentes, ou seja, paga-se uma "taxa" para que se possa ser abençoado. Na cena não existe nenhuma expressão de justiça. Mesmo porque, quem treinou o cachorro para fazer aquilo não é justo, pois dá ordem para que o cachorro faça exatamente o que ele quer. E ele não permite que o cachorro coma sem que ele antes "ore". Isso não é justo; isso não é justiça; isso não é fé. Todavia, o justo viverá da fé!

Nota: O texto acima foi baseado em uma palestra proferida por Paulo Junior no Seminário "Missão na Íntegra", realizado em Araçatuba-SP. Embora algumas palavras tenham sido alteradas e outras acrescentadas ou subtraídas, a essência da mensagem permanece a mesma. As alterações, os acréscimos e as subtrações foram feitas apenas para adequar na forma escrita tudo o que foi brilhantemente falado pelo irmão Paulo Junior.

Clique aqui para assistir ao vídeo da Palestra.

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