terça-feira, 10 de maio de 2011

QUEM AMA NÃO MATA!

            Certamente que muitos, ao lerem o título desta postagem, vão lembrar da minissérie brasileira produzida pela Rede Globo, escrita por Euclydes Marinho e dirigida por Daniel Filho e Dennis Carvalho. Exibida pela primeira vez em 1982, a minissérie Quem Ama Não Mata foi inspirada na onda de crimes passionais que ocorria na época no Brasil. Mas não é dela que vou tratar, mesmo porque este Blog não se destina a esse tipo de assunto. O que motivou-me a escrever esta postagem foi o grande amor que Herodes demonstrava sentir por Mariana (54 a.C — 29 a.C), a ponto de ter chorado em seus braços, após sentir-se confiante na fidelidade da esposa - confiança esta que seria abalada alguns segundos depois, tão logo  sua amada falasse o que não devia. Como estudante de História, tal fato não passou desapercebido aos meus olhos quando pesquisava acerca daquele que, sentindo o seu reinado ameaçado, mandou executar, em Belém, todas as crianças de até dois anos de idade, na tentativa de eliminar Aquele que estava sendo proclamado o Rei dos judeus.  

  
Flávio Josefo
             Herodes, o Grande, nasceu no ano de 73 a.C. e foi rei da Judéia entre 37 a.C. e 4 a.C. A mãe de Herodes era de origem árabe, e o pai, um general talentoso, era edomita. Mesmo tendo sido criado como judeu, Herodes era considerado um forasteiro por muitos dos seus súditos e, nessa condição de semijudeu, não partilhou o prestígio social das poderosas e antigas famílias de Jerusalém. Três anos após a morte do pai por envenenamento, em 43 a.C., Herodes foi atrás da ajuda dos romanos, pois os partos haviam invadido a Judéia e uma facção macabéia rival aliou-se aos invasores, voltando-se contra ele. Depois de escapar de Jerusalém com a família, Herodes derrotou os partos e seus aliados judeus, viajando em seguida para Roma, onde o Senado, em reconhecimento à sua inabalável lealdade, o nomeou rei da Judéia. Apesar do sucesso em muitas áreas, a vida privada de Herodes era turbulenta: tinha dez esposas e mais de doze filhos, que formavam uma família recheada de freqüentes conspirações, alimentando a paranóia e a crueldade do monarca. Em 29 a.C.,  mesmo amando profundamente Mariana, durante um surto de ciúme arquitetado por sua irmã Salomé, mandou executá-la, mergulhando em profunda depressão e passando a chamar o nome dela como se quisesse tirá-la da sepultura. A Revista National Geographic, Nº 105, dezembro de 2008, com reportagem de capa sob o título "O vilão da Bíblia", da página 46 a 69, traz uma matéria de Tom Mueller com essas e outras informações. Todavia, foi estudando o motivo da morte de Herodes, o Grande, que no livro História dos Hebreus, do historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo (37 ou 38 - c. 100 d.C.), deparei-me com o assunto em pauta: a ordem de Herodes para que a esposa que tanto amava fosse executada. 
 
Ilustração de Cleópatra
             Herodes participou de diversas batalhas e foi protagonista em muitas conspirações. Porém a guerra mais renhida era a que estava travada no meio da sua própria família. Vou tratar de uma, em particular, que levou Herodes a mandar matar Mariana, a esposa por quem nutria um profundo amor (ou seria paixão?). O motivo dessa funesta decisão foi a calúnia resultante de uma intriga entre Mariana, a sogra e a cunhada Salomé. Herodes, no entanto, já havia criado uma certa animosidade com sua sogra, Alexandra, e com a própria esposa Mariana, quando mandou matar afogado o cunhado, Aristóbulo, após ter outorgado a ele o sumo sacerdócio. Aristóbulo tinha apenas 18 anos quando foi morto e, embora Herodes tivesse tido todo o cuidado para que ninguém desconfiasse que ele mesmo havia mandado matar o rapaz, sua sogra e sua esposa, Mariana, bem sabiam ter sido ele o mandante do crime.  Com uma ferida tão profunda no coração, provocada pela morte do filho que tanto amava, respirando desejo de vingança, Alexandra escreveu para Cleópatra, relatando como Herodes lhe havia tirado o filho, com tão detestável traição. A rainha Cleópatra, que tanto foi inclinada a ajudar a amiga Alexandra, teve tanta pena de sua desdita, que tudo fez para convencer Antônio a vingar uma morte tão deplorável. Herodes havia sido elevado ao trono por Antônio e este, ao ouvir o relato emocionado de sua mui amada Cleópatra acerca de como o filho da amiga Alexandra havia sido cruelmente assassinado, deu ordem para que Herodes fosse procurá-lo a fim de se justificar do crime que o acusavam. Nesse ponto vou prosseguir citando Flávio Josefo:

            "Herodes, que se sentia culpado e receava a ira de Cleópatra, que ele sabia incitar continuamente Antônio contra ele, temia muito essa viagem. A necessidade de obedecer, no entanto, o obrigou a empreendê-la, e ele deixou o governo do reino a José, seu cunhado, ordenando-lhe em segredo que, se Antônio o condenasse, ele deveria imediatamente matar a rainha Mariana, sua mulher, pois ele a amava com tanta paixão que não podia tolerar que, depois de sua morte, ela passasse para outro homem. Além disso, considerava que ela era a causa de sua infelicidade, pois a fama de sua extraordinária beleza suscitara havia muito o amor de Antônio por ela. Depois de dar essas ordens, ele se pôs a caminho, com pouca esperança de um feliz êxito.


Marco Antônio
            Na ausência de Herodes, José ia freqüentemente visitar Mariana, quer para prestar-lhe a honra que lhe era devida, quer para tratar dos negócios do reino, e lhe falava constantemente do extremo amor que o rei seu marido tinha por ela. Quando ele notou que, em vez de mostrar que acreditava, ela se punha a zombar, e Alexandra, sua mãe, mais que ela ainda, um imprudente desejo de fazê-las mudar de sentimento levou-o a revelar a ordem que recebera, o que comprovava que Herodes não podia tolerar que a morte o separasse dela. Essas palavras, todavia, em vez de persuadir as princesas do afeto de Herodes, causaram-lhes horror, pela tirânica desumanidade que, mesmo após a morte, o tornava tão cruel para com a pessoa a quem ele mais amava na terra. Os inimigos desse príncipe então fizeram correr a notícia de que Antônio mandara matar Herodes, depois de submetê-lo a diversos tormentos. Toda a cidade de Jerusalém ficou agitada, principalmente no palácio real e no das princesas. Alexandra exortou José a sair com ela e com Mariana, a fim de se colocarem sob a proteção das águias romanas — da legião comandada por Júlio, que estava acampada fora da cidade — e assim ficarem em segurança, caso houvesse algum tumulto, e também porque ela não duvidava de que quando Antônio visse Mariana obteria dele tudo o que quisesse, até mesmo a restauração ao trono e todas as outras honras e privilégios que o seu nascimento lhe permitia esperar. Pensavam assim, quando receberam cartas de Herodes, contrariando essas notícias. Diziam que, tendo chegado onde Antônio estava, havia acalmado o seu espírito com grandes presentes, tornando-o tão favorável nas conversações que tivera com ele que não havia mais motivo para temer os maus ofícios de Cleópatra, porque Antônio afirmava que um rei não era obrigado a prestar contas a ninguém de suas ações com relação ao governo de seu território, pois se assim fosse deixaria de ser rei, não podendo agir com a autoridade que tal posição lhe concede, e que não importava, nem mesmo a Cleópatra, a maneira como os reis governam. As cartas acrescentavam que não havia honras que ele não tivesse recebido de Antônio, o qual se servia de seus conselhos e o convidava todos os dias para banquetes, embora Cleópatra fizesse todos os esforços para destruí-lo, pelo desejo que tinha de ser rainha da Judéia. Mas a justiça de Antônio estava à porta dos artifícios e calúnias da princesa, e assim ele voltaria logo, mais consolidado do que nunca em seu reino e no afeto de Antônio, sem que restasse a Cleópatra esperança alguma de prejudicá-lo, porque Antônio entregara a ela a Baixa Síria, com a condição de que desistisse das pretensões que tinha sobre a Judéia.

            Essas cartas fizeram Alexandra — e também Mariana — abandonar a idéia de ficar sob a proteção das águias romanas, mas Herodes veio a sabê-lo. Salomé, sua irmã, e sua mãe disso lhe falaram logo que ele chegou a Jerusalém e depois que Antônio partiu em marcha contra os partos. Salomé fez ainda mais. Para se vingar de Mariana, que tinha o coração extremamente grande, mas havia censurado numa contestação entre ambas a baixeza da origem da outra, ela acusou José, seu próprio marido, de ter se portado muito familiarmente com a princesa. Herodes, que amava ardentemente Mariana, sentiu então até onde iam os seus ciúmes. Conteve-se, todavia, embora com dificuldade, para que não percebessem que a sua paixão o fazia perder o juízo. E, em particular, perguntou a Mariana que relações ela tivera com José. Ela protestou com juramento, do qual uma pessoa inocente pode se servir para a sua justificação, que nada houvera entre eles que ele viesse a ter motivo para se queixar. Herodes, vencido pelo amor que lhe devotava, não somente acalmou o espírito como também pediu perdão por ter, ainda que levemente, prestado fé às palavras que lhe haviam dito. Demonstrou ainda toda a satisfação que sentia por saber que ela era tão fiel e tudo fez para mostrar-lhe com que paixão a amava. Tantas provas de ternura fizeram, como acontece em casos semelhantes, com que ambos se pusessem a chorar e se abraçassem. Porém, ainda que Herodes se esforçasse por lhe incutir cada vez mais o seu amor, ela não pôde deixar de lhe dizer: "Achais então que é grande prova de amor ter ordenado que me mandassem matar, caso Antônio também vos tirasse a vida, embora eu jamais tivesse dado motivo para que ficásseis insatisfeito comigo?" Essas palavras foram como uma punhalada no coração de Herodes. Ele afastou Mariana, a quem ainda estava abraçado, arrancou os cabelos e disse que já não podia duvidar de seu crime, pois era impossível que José lhe tivesse manifestado um segredo daquela importância sem que ela se tivesse entregado a ele, para recompensá-lo pela traição. Ficou de tal modo transtornado pela cólera que a teria matado naquele mesmo instante, se a violência do amor não tivesse combatido a força do ciúme. Quanto a José, mandou imediatamente matá-lo, sem nem mesmo querer vê-lo ou ouvi-lo, e mandou meter Alexandra numa prisão, como sendo a causadora de todo aquele mal. (...)"

(JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus, CPAD, 9ª edição, 2005, pp. 696 a 699)

                       
            Herodes prosseguiu em suas idas e vindas, acumulando derrotas e vitórias. Mas o que sentia por Mariana era algo que não mudava, apenas crescia. Acontece que, mesmo com o grande e constante prestígio junto aos governantes em Roma, o clima familiar era sempre tenso, devido, principalmente, ao caráter maligno do monarca. E mesmo o grande amor que acreditava sentir por sua esposa, não o impediria de mandar executá-la, após uma ardilosa trama arquitetada por sua mãe e por sua irmã, que tanto odiavam Mariana. Esse fato é narrado por Josefo da seguinte forma:
            "Herodes, na volta ao seu reino, em vez de desfrutar a doçura da paz ou um descanso tranqüilo, encontrou apenas perturbação em sua própria família, pelo descontentamento de Mariana e de Alexandra. Elas julgavam, com razão, que não era para cuidar de sua segurança que ele as encerrara naquele castelo, e sim para mantê-las prisioneiras, pois não tinham liberdade para dispor do que quer que fosse. Mariana, além disso, estava convencida de que o grande amor que ele lhe demonstrava era simulação, que ele apenas a julgava útil aos seus interesses. Como sempre se recordava da ordem que ele dera a José, pensava nisso com horror, pois, mesmo que ele viesse a morrer, ela não esperava continuar vivendo depois da morte dele. Assim, não havia meios que ela não empregasse para conquistar os guardas, particularmente Soeme, de quem ela sabia que dependia a sua morte ou a sua vida. No começo, ele era muito fiel a Herodes, mas pouco a pouco os presentes e a cordialidade das princesas o conquistaram. Ele não imaginava que Herodes, mesmo evitando o perigo que o ameaçava, viesse a conquistar tão grande autoridade. Julgava também que podia esperar mais das princesas do que dele e que a gratidão que elas lhe demonstravam por tão grande serviço o manteria não somente na estima em que se achava, mas aumentaria ainda o seu prestígio. E, ainda que sucedesse a Herodes tudo o que este poderia desejar, a sua incrível paixão por Mariana o tornaria onipotente. Tantas considerações, juntas, levaram-no a revelar às princesas o segredo que lhe fora confiado. Mariana ficou fora de si de despeito e de cólera ao ver que os males que ela devia temer não tinham limites, e fazia continuamente votos de que tudo fosse contrário a Herodes. Nada agora lhe parecia mais insuportável que passar a vida com ele, e esses sentimentos fizeram tal impressão em seu espírito que ela já não os podia dissimular.

            Os resultados da viagem sobrepujaram as esperanças de Herodes, e a primeira coisa que ele fez ao chegar foi procurar Mariana, para abraçá-la e dizer-lhe que ela era a pessoa a quem mais ele amava no mundo e que a amava ainda mais e para contar de que modo tudo lhe havia sucedido maravilhosamente. Enquanto ele falava, ela ficou sem saber se devia alegrar-se ou afligir-se, mas a sua extrema sinceridade não lhe permitia ocultar a agitação de seu espírito, e os seus suspiros faziam ver que aquelas palavras lhe davam mais tristeza que alegria. Herodes então não pôde mais duvidar do que ela trazia na alma: uma aversão tão patente que ele a percebeu em seguida. E o seu excessivo amor por ela tornava aquele desprezo insuportável. Ao mesmo tempo, contudo, a sua cólera era de tal modo combatida pelo afeto que ele passava do ódio ao amor e do amor ao ódio. Assim, hesitando entre as duas paixões, não sabia que partido tomar, pois, ao mesmo tempo em que desejava matá-la, para vingar-se daquela ingratidão, sentia em seu coração que a morte dela o tornaria o mais infeliz de todos os homens.


Cesar Augusto
             Quando a mãe e a irmã de Herodes, que odiavam mortalmente Mariana, viram-no sob aquela agitação, julgaram ter encontrado uma ocasião mais que favorável para destruí-la. Não houve calúnias de que não se servissem para aumentar a irritação do príncipe e inflamar cada vez mais os seus ciúmes. Eles as escutava e demonstrava não reprovar que elas falassem contra Mariana, mas não se resolvia a matar uma pessoa a quem ele amava mais que a própria vida. No entanto irritava-se contra ela cada dia mais, e ela, por sua vez, não dissimulava os seus sentimentos. Por fim, o amor dele transformou-se em ódio, e ele teria então executado a sua cruel resolução, não fosse a notícia de que Augusto se tornara senhor do Egito pela morte de Antônio e de Cleópatra. Essa notícia obrigou-o a deixar tudo para ir procurá-lo. Recomendou Mariana a Soeme com grandes demonstrações de satisfação, pelo cuidado que tivera dela, e deu a ele um governo na Judéia. Como já havia adquirido muita familiaridade com Augusto e tinha parte na sua amizade, Herodes recebeu dele não somente honras, mas grandes benefícios. Augusto deu-lhe quatrocentos gauleses que serviam de guardas a Cleópatra e entregou-lhe aquela parte da judéia que Antônio entregara a ela, bem como as cidades de Gadara, Hipona e Samaria e, à beira-mar, Gaza, Antedom, Jope e a torre de Estratão, o que aumentou em muito o seu reino.

            Herodes acompanhou Augusto até Antioquia e, quando voltou a Jerusalém, sentiu que o seu casamento, que antes considerava a sua maior felicidade, o tornava agora tão infeliz em seu próprio reino quanto era bem-sucedido fora de sua pátria. Ele amava tão ardentemente Mariana que não se lê em história alguma que outro homem tenha sido mais arrebatado que ele por um amor ilegítimo a sua própria mulher. A princesa, não obstante ser extremamente sensata e muito casta, era de mau gênio e abusava de tal modo da paixão que ele sentia por ela que o tratava às vezes com desprezo, chegando mesmo a ofensas, sem ter em consideração o respeito que lhe era devido. Ele dissimulava, no entanto, e sofria mesmo as censuras que ela fazia a sua mãe e a sua irmã pela baixeza do nascimento delas, causa do ódio irreconciliável que as levou a usar de tantas acusações falsas para arruiná-la. E assim, os ânimos acirravam-se cada vez mais, e um ano passou-se desse modo depois que Herodes retornou da visita a Augusto. Mas, por fim, o desígnio que ele vinha alimentando desde muito tempo em seu espírito chegou ao seu termo, pelo motivo que passo a expor.

Herodes entrando em Jerusalém (36 a.C)
Miniatura de Jean Fouquet
            Um dia, Herodes retirou-se para o seu quarto, a fim de descansar, pelo meio-dia, e mandou chamar Mariana, a quem ele não conseguia deixar de amar com paixão. Ela veio. No entanto, por mais instâncias que ele lhe fizesse, ela não quis aproximar-se dele e censurou-o ainda pela morte de seu pai e de seu irmão. Essas palavras ofensivas, bem como o desprezo dela, irritaram Herodes de tal modo que ele foi tentado a feri-la. Salomé, ao saber do que se passara, fez entrar no quarto um criado do príncipe. O homem, que ela havia subornado, instruído por ela disse que a rainha lhe oferecera uma grande recompensa para levar ao rei certa bebida. Herodes, perturbado por essas palavras, perguntou-lhe que bebida era. O criado respondeu-lhe que a rainha não lhe dera o que colocar dentro da taça, queria somente que a apresentasse. E, como ignorava a força daquela poção, julgara seu dever advertir sua majestade. Tal resposta aumentou ainda mais a perturbação de Herodes. Então ele mandou torturar um eunuco de Mariana, que ele sabia ser-lhe muito fiel, pois não duvidava de que ela lhe confiasse tudo. O homem nada confessou, mas deixou escapar dos lábios, no meio dos tormentos, que o ódio de Mariana provinha do que ela soubera por meio de Soeme. Diante dessas palavras, Herodes disse que Soeme, antes tão fiel, jamais lhe teria revelado o segredo se não tivesse abusado de Mariana e ao mesmo tempo mandou matar Soeme.

            Quanto à rainha, quis submetê-la a julgamento. Reuniu para isso os conselheiros nos quais ele mais confiava e ordenou a Mariana que se defendesse. Acusou-a do falso crime de tentar dar-lhe uma bebida para envenená-lo. E, em vez de se manter nos limites da moderação, como convém a um juiz, falou com tanta veemência e fúria que os outros juízes não tiveram dificuldade em lhe conhecer a intenção, e eles condenaram à morte a inocente princesa. No entanto julgaram — e ele também foi da mesma opinião — que não se devia apressar a execução, que era preferível aprisioná-la no palácio. Porém, Salomé e os de seu partido, não podendo tolerar qualquer demora, procuraram por todos os meios mudar essa deliberação, e uma das mais fortes razões de que se serviram para persuadir Herodes foi o temor que ele devia ter de que o povo se sublevasse, caso viessem a saber que a rainha ainda estava viva. Assim, levaram-na imediatamente ao suplício.

            Alexandra, julgando que não seria tratada com mais benignidade que a filha, esqueceu, por vergonhosa mudança, a coragem de que até então sempre dera provas e mostrou-se tão fraca e covarde quanto antes fora altiva. Assim, para insinuar que não tivera parte no crime da filha, tratou-a ultrajosamente na presença de todos. Dizia que ela era má, ingrata e indigna do extremo amor que o rei lhe dedicara e sofria o que merecia tão grande crime. Falando assim, parecia querer ela mesma lançar-se sobre a filha e arrancar-lhe os cabelos. Não houve quem não condenasse essa covarde dissimulação. Mariana, mais que todos, com o seu silêncio, tampouco se comoveu com tais injúrias e nem se dignou responder-lhe, mas contentou-se em mostrar no rosto, com a coragem de costume, a vergonha que sentia por tal baixeza. E, sem demonstrar o menor medo, nem ao menos mudando de cor, manifestou até a morte a mesma coragem que havia demonstrado durante toda a sua vida.

            Assim terminou a sua existência essa princesa tão casta e corajosa, porém muito altiva e de natureza muito áspera. Sobrepujava infinitamente em beleza, em majestade e em graça todas as outras mulheres de sua época, e tantas e tão raras qualidades foram a causa de sua infelicidade, pois, vendo o rei seu marido tão apaixonado por ela, julgou que nada tinha a temer, perdeu o respeito que lhe devia e não teve receio de confessar o ressentimento que conservava por ter ele mandado matar o seu pai e o seu irmão. Semelhante imprudência tornou também a mãe e a irmã do soberano adversárias suas e por fim obrigou ele mesmo a tornar-se também seu inimigo.

           Por mais violenta que fosse a paixão de Herodes por Mariana durante a vida, e o que referimos nô-lo mostra suficientemente, ela aumentou após a sua morte. Ele não a amava como os outros maridos amam a suas esposas, mas chegava quase à loucura. E, por mais estranha a maneira como ambos viveram, ele não conseguia deixar de amá-la. Depois que ela já não era deste mundo, parecia-lhe que Deus exigia dele o sangue da mulher. Ele ouvia a todo instante pronunciarem o nome dela. Lamentava-se de maneira indigna da sua condição de rei e buscava em vão nos banquetes e nos outros divertimentos algum alívio para o seu sofrer. Chegou o seu penar a tal excesso que ele abandonou o cuidado do reino. E ordenava que fossem chamar Mariana como se ela ainda estivesse viva. (...)"


(Idem. História dos Hebreus, CPAD, 9ª edição, 2005, pp. 696 a 699)

           
             Herodes, o Grande, matou muitas pessoas, direta ou indiretamente. Não poupava esforços para tirar do seu caminho qualquer um que considerasse uma ameaça ao seu reino. Porém, o que marcou de forma profunda a vida desse tirano não foi o fato de ter mandado executar a sua inocente esposa por quem ardia de paixão (sim, paixão, pois se fosse amor ele não a teria matado), mas  a matança de crianças até dois anos de idade, em Belém, determinada por ele, a fim de eliminar Aquele em quem a Profecia havia se cumprido e que seria proclamado Rei dos judeus. Assim, considerando que o menino Jesus era um perigo para o seu reinado, não percebeu que havia mandado executar Aquele que não é apenas o Rei dos judeus, mas o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Por falta de temor a Deus, Herodes não entendeu que o Senhor Jesus Cristo não veio para roubar ninguém, mas para dar a vida eterna a todo aquele que Nele crê (Jo 3.16).



Pastor Hafner
Chavannes - Suíça