segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

DIVÓRCIO E NOVO CASAMENTO


“Aproximaram-se dele alguns fariseus que o experimentavam, dizendo: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3-6)
Por vezes demais ímpios e crentes encaram os mandamentos bíblicos referentes à sexualidade humana como simplesmente rígidos demais, como uma lista de proibições desconexas cujo único objetivo aparente é nos privar de ser feliz. Essa era a raiz do problema dos fariseus que questionaram Jesus. Eles queriam saber sobre os meios de conseguir divórcio fácil. Eles viam o casamento como uma prisão. Queriam saber como poderiam se ver livres. Da mesma maneira muitos hoje encaram os mandamentos bíblicos sobre relacionamentos e casamento como uma algema. Mas o problema não está nos mandamentos de Deus e sim naquilo que acreditam que encontrarão sua liberdade: em seus próprios pecados, na transgressão contra a Lei de Deus.
Os fariseus perguntaram especificamente sobre o divórcio. Jesus lhes respondeu apresentando o contexto maior. A possibilidade do fim do casamento não pode ser entendida sem uma compreensão adequada do propósito original pelo qual o casamento sequer existe. Isso não é válido somente para a questão do divórcio, mas pra tudo que se refere à sexualidade humana. O motivo principal pelo qual muitos veem tudo como uma lista de proibições desconexas é que a maioria não compreende o assunto à luz do propósito original de Deus na criação. O fato é que nenhuma proibição Divina existe arbitrariamente, mas é sempre uma proteção de valores que foram positivamente estabelecidos por Deus. A proibição do homicídio, por exemplo, existe pra proteger a vida humana. Já a proibição do adultério existe pra proteger a instituição do casamento. Desta maneira, pra compreender a sexualidade humana precisamos começar não com as proibições e as privações, mas com uma reflexão sobre o propósito Deus na criação da humanidade e o contexto da sexualidade dentro deste propósito. Então, quando questionado sobre o divórcio, Jesus falou sobre a Criação:
“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gênesis 1:27)
“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem. Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada. Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne”. (Gênesis 2:21-24)
“Respondeu-lhe Jesus: Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne? Assim já não são mais dois, mas um só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. (Mateus 19:4-6)
Aqui Cristo ensinou que o casamento não é um pacto que envolve somente aqueles que estão se casando. Além de envolver aqueles que estão se casando, envolve Deus. É Deus quem estabelece o pacto entre o marido e sua esposa. Por isso, não é verdade, como perguntaram os fariseus, que “é lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo” (Mt 19:3). E por quais motivos é lícito? Para entender, é importante lembrar, como S. Paulo nos ensinou, que casamentos humanos refletem o casamento entre Cristo e Seu povo:
“Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo”. (Efésios 5:22-23)
Dizer que “é lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo” implicaria em dizer que Cristo não tem qualquer compromisso com Seu povo, podendo simplesmente lança-los fora arbitrariamentepor qualquer motivo. Mas Deus é fiel ao seu pacto:
“Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é que é Deus, o Deus fiel, que guarda o pacto e a misericórdia”. (Deuteronômio 7:9)
É por isso que se casar não é como comprar um carro. Se eu compro um carro, eu tenho o direito de me desfazer dele a hora que eu quiser e comprar outro. Depende simplesmente de minha vontade e de minhas condições financeiras. O casamento não é assim. Ele deve ser encarado como um pacto para a vida inteira:
“Porque a mulher casada está ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver; mas, se ele morrer, ela está livre da lei do marido. De sorte que, enquanto viver o maridoserá chamado adúltera, se for de outro homem; mas, se ele morrer, ela está livre da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido”. (Romanos 7:2-3)
É por isso que Malaquias criticou os judeus que quebravam o pacto com suas mulheres quando se divorciavam delas:
“Ainda fazeis isto: cobris o altar do Senhor de lágrimas, de choros e de gemidos, porque ele não olha mais para a oferta, nem a aceitará com prazer da vossa mão. Todavia perguntais: Por que? Porque o Senhor tem sido testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, para com a qual procedeste deslealmente sendo ela a tua companheira e a mulher do teu pacto. E não fez ele somente um, ainda que lhe sobejava espírito? E por que somente um? Não é que buscava descendência piedosa? Portanto guardai-vos em vosso espírito, e que ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidadePois eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel, e aquele que cobre de violência o seu vestido; portanto cuidai de vós mesmos, diz o Senhor dos exércitos; não sejais infiéis”. (Malaquias 2:13-16)
O homem tem que ser como Deus. Deus não é desleal com Seu povo. Portanto, o homem não pode ser desleal com sua esposa. Mas, apesar do pacto não poder ser quebrado por infidelidade da parte de Deus, ele pode ser quebrado por infidelidade de Seu povo:
“Ainda veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, faze conhecer a Jerusalém seus atos abomináveis [...] Te vesti de bordados, e te calcei com pele de dugongo, cingi-te de linho fino, e te cobri de seda. Também te ornei de enfeites, e te pus braceletes nas mãos e um colar ao pescoço. E te pus um pendente no nariz, e arrecadas nas orelhas, e uma linda coroa na cabeça. Assim foste ornada de ouro e prata, e o teu vestido foi de linho fino, de seda e de bordados; de flor de farinha te nutriste, e de mel e azeite; e chegaste a ser formosa em extremo, e subiste até a realeza. Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois era perfeita, graças ao esplendor que eu tinha posto sobre ti, diz o Senhor Deus. Mas confiaste na tua formosura, e te corrompeste por causa da tua fama; e derramavas as tuas prostituições sobre todo o que passava, para seres dele”. (Ezequiel 16:1-2,10-15)
“Levanta os teus olhos aos altos escalvados, e vê: onde é o lugar em que não te prostituíste? Nos caminhos te assentavas, esperando-os, como o árabe no deserto. Manchaste a terra com as tuas devassidões e com a tua malícia. Pelo que foram retidas as chuvas copiosas, e não houve chuva tardia; contudo tens a fronte de uma prostituta, e não queres ter vergonha. Não me invocaste há pouco, dizendo: Pai meu, tu és o guia da minha mocidade; Reterá ele para sempre a sua ira? ou indignar-se-á continuamente? Eis que assim tens dito; porém tens feito todo o mal que pudeste. Disse-me mais o Senhor nos dias do rei Josias: Viste, porventura, o que fez a apóstata Israel, como se foi a todo monte alto, e debaixo de toda árvore frondosa, e ali andou prostituindo-se? E eu disse: Depois que ela tiver feito tudo isso, voltará para mim. Mas não voltou; e viu isso a sua aleivosa irmã Judá. Sim viu que, por causa de tudo isso, por ter cometido adultério a pérfida Israel, a despedi, e lhe dei o seu libelo de divórcio”. (Jeremias 3:2-8)
Com base nisso, podemos entender melhor em quais circunstâncias o divórcio é lícito. Da mesma forma, na era do Novo Testamento, Cristo avisou às igrejas que elas também poderiam ser lançadas fora, caso fossem infiéis (Rm 11:21-22, Ap 2:5). Assim como o pacto entre Deus e Seu povo é quebrado quando o povo é infiel e isso dá base que sejam lançados fora, como adúlteros e transgressores do pacto, também um conjugue infiel é um transgressor do pacto do casamento. É por isso que Jesus disse:
“Eu vos digo porém, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de imoralidade sexual, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério”. (Mateus 19:9)
Ou seja, segundo Cristo, não “é lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo”. Se ele fizer isso e se casar com outra, ele estarácometendo adultério. Por que adultério? Porque, sem uma causa justa para o divórcio, aos olhos de Deus Ele continua casado com a primeira, sendo uma só carne com ela, ainda que, aos olhos dos homens, ele tenha se divorciado da primeira. “Deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne” (Mt 19:5). Se ele continua a ser uma só carne com a primeira, pois não teve base justa para o divórcio, ele não pode tomar uma segunda. Ele estará adulterando ao tomar uma segundaesposa. É por isso que Paulo disse:
Todavia, aos casados, mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido; se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (I Coríntios 7:10-11)
Por que Paulo disse isso aqui? Porque, no contexto, ele estava falando sobre os benefícios de permanecer solteiro como um celibatário:
“Contudo queria que todos os homens fossem como eu mesmo”. (I Coríntios 7:7-8)
Aos falar dos benefícios de ser um celibatário, era importante que os maridos não interpretassem isso como um incentivo para deixar suas esposas e nem que as esposas interpretassem isso como um incentivo para deixar seus maridos. Por isso, logo em seguida, ele acrescentou: “Todavia, aos casados, mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido… e que o marido não deixe a mulher”. Ou seja, Paulo estava esclarecendo que suas recomendações não eram contrárias ao mandamento do Senhor: “o que Deus ajuntou, não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).
Todavia, como Cristo ensinou também, com base no exemplo que temos do próprio Deus no Antigo Testamento, se ele se divorciar “por causa de imoralidade sexual” (Mt 19:9), ele não comete adultério ao se casar com outra. O segundo casamento é válido porque o divórcio foi válido. Qualquer que repudiar sua mulher por qualquer motivo, não sendo por causa de imoralidade sexual, e casar com outra, comete adultério. Mas se for por causa de imoralidade, não comete.

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