quarta-feira, 12 de março de 2014

O que é o batismo com o Espírito Santo e com fogo?


Em Lucas 3.16, lemos: “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias; este vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. Essa passagem e também Mateus 3.11 nos apresentam, a rigor, dois tipos de batismo: (a) em águas, para arrependimento, e (b) com o Espírito Santo e com o fogo, um revestimento de poder para os salvos em Cristo (cf. Lc 24.49; At 1.5,8; 2.1-4).

Para interpretar as passagens bíblicas corretamente, além da iluminação do Espírito, precisamos levar em conta os princípios da Hermenêutica Bíblica — a arte e a ciência de interpretar os textos das Escrituras. E a principal função dessa matéria é aclarar passagens de difícil compreensão (cf. 2 Pe 3.16), conquanto seja também muito útil na interpretação geral das Escrituras.

O princípio dos princípios de interpretação (a regra áurea) da Hermenêutica Bíblica é: A Bíblia interpreta a própria Bíblia (cf. 2 Pe 1.20,21). Ou seja, as Escrituras são análogas. E, nesse caso, para interpretar uma passagem bíblica, é preciso considerar todos os tipos de contextos: (a) contexto geral; (b) contexto imediato; (c) contexto remoto: há alusões do Gênesis em Hebreus, por exemplo, que complementam o que está no primeiro livro do Antigo Testamento; (d) contexto referencial: passagens paralelas; (e) contexto histórico: época, cultura, ocasião, propósito original dos textos em estudo, etc.; (f) contexto literário: cada parágrafo é uma unidade de pensamento da revelação da Bíblia; (g) contexto cultural: estudo sobre os povos bíblicos.

No caso de Lucas 3.16 (ou Mateus 3.11), o contexto imediato não é suficiente para uma correta interpretação. Por quê? Porque, por meio dele, o exegeta pode ser induzido a interpretar, apressadamente, que há mesmo uma distinção entre o batismo com o Espírito Santo (uma bênção) e o batismo com fogo (juízo divino). E essa conclusão não é corroborada por todos os contextos mencionados.

Em primeiro lugar, o próprio Senhor Jesus, antes de sua ascensão, fez menção do revestimento de poder aludido por João Batista nos seguintes termos: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5). Observe que o Senhor não apresenta o “batismo com fogo”, dando a entender que João apenas aludiu ao fogo de maneira simbólica, para, mediante seus efeitos, ilustrar as ministrações do Espírito ao crente: iluminação, fervor, purificação, etc.

É importante considerar que João Batista, a despeito de aparecer no Novo Testamento, exerceu um ministério profético nos moldes do Antigo Testamento (Lc 16.16). E para os profetas veterotestamentários era comum falar de bênçãos e juízos de modo intercalado. Veja o caso de Isaías 61.1-3. O profeta discorre sobre várias bênçãos trazidas pelo Messias e, ao mesmo tempo, menciona “o dia da vingança do nosso Deus” (v.2). Em Zacarias 9 ocorre o mesmo: bênçãos e juízos se intercambiam.

Nesse caso, o fato de João Batista ter mencionado antes e depois da promessa do revestimento de poder o juízo por meio do fogo (Mt 3.10-12) não oferece base suficiente para distinguirmos entre o batismo com o Espírito e o batismo com fogo.

De acordo com a analogia geral, o fogo não significa apenas juízo, mas também denota purificação, iluminação e fervor propiciados pelo Espírito. E, por isso, no dia de Pentecostes, “foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles” (At 2.3).

Finalmente, menciono a opinião do respeitado teólogo pentecostal French L. Arrington: “O batismo com fogo [...] não diz respeito, pelo menos primariamente, ao julgamento final e à destruição por fogo dos ímpios, mas aos acontecimentos momentosos do Livro de Atos. A unção com o Espírito não é identificada explicitamente com o batismo com o Espírito e com fogo, mas Jesus confirma a promessa de João Batista acerca do batismo [...], o qual é cumprido como ‘línguas de fogo’ que pousaram sobre cada um dos discípulos” (Comentário Bíblico Pentecostal, CPAD, p.335).

[...] procurei demonstrar, pela analogia geral da Bíblia, que o batismo com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11; Lc 3.16) é uma coisa só, não havendo base contextual suficiente para a criação de outro batismo de julgamento, distinto do batismo com o Espírito Santo.

Segue-se que o fogo, nas passagens sinóticas mencionadas, foi empregado tão-somente para ajudar-nos a compreender, pela sua riqueza simbólica, a multíplice manifestação do Espírito na igreja. Não foi por acaso que o apóstolo Paulo asseverou: “Não extingais [apagueis] o Espírito” (1 Ts 5.19).

Paulo usou a figura do fogo para ilustrar a manifestação do Espírito no meio do povo de Deus. Isso porque o fogo alastra-se, comunica-se, purifica, ilumina, aquece, etc. Assim é a manifestação do Espírito como fogo.

Para muitos, a dificuldade em aceitar o batismo com o Espírito Santo e com fogo deve-se ao fato de a salvação em Cristo também ser descrita, figuradamente, como um batismo (1 Co 12.13, Gl 3.27; Ef 4.5). Todos os salvos, verdadeiramente, foram batizados pelo Espírito, imersos, feitos participantes do Corpo místico de Cristo, que é a sua Igreja (Hb 12.23; 1 Co 12.12ss). Nesse batismo da conversão, recebemos vida de Deus, mas o batismo com o Espírito e com fogo confere-nos poder de Deus (At 1.8).

Os discípulos que foram agraciados com o revestimento de poder no dia de Pentecostes já eram salvos! Observe a promessa que o Senhor havia feito a eles: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5).

Quando o apóstolo Paulo passou por Éfeso, depois de Apolo, disse aos salvos que ali estavam: “Certamente João [Batista] batizou com o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (At 19.4-6).

Portanto, num sentido, todos os salvos foram batizados pelo Espírito Santo no Corpo de Cristo. Noutro, nem todos foram batizados com o Espírito Santo e com fogo, conquanto esse dom esteja à disposição de cada salvo em Cristo. Afinal, essa “promessa [...] diz respeito [...] a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar” (At 2.39).

No dia de Pentecostes, os seguidores do Mestre receberam a bênção em apreço pela primeira vez, tendo como evidência as línguas repartidas como que de fogo que pousaram sobre cada um deles (At 2.1-4). Elas não foram produzidas pelos próprios seguidores de Jesus. Elas vieram sobre aqueles, de modo sobrenatural: “E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles” (At 2.3).

É importante dizer que o termo “línguas estranhas” é usado no meio pentecostal para denotar que essas línguas são estranhas (desconhecidas) para quem as pronuncia, e não — necessariamente — aos que as ouvem.

Vários dons do Espírito Santo são exercidos através da língua. Deus usa as línguas estranhas como sinal externo do batismo com o Espírito Santo e com fogo, para demonstrar sua inteira posse e controle da nossa língua, ao batizar os seus servos (cf. Tg 3.8).

Há muitos abusos nessa área, promovidos por movimentos pseudopentecostais. Mas o livro de Atos dos Apóstolos não deixa dúvidas quanto ao fato de as línguas estranhas serem a evidência inicial do revestimento de poder em análise. Em três passagens, pelo menos, é mencionada, textualmente, essa verdade: “começaram a falar em outras línguas” (2.4); “os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (10.46); “e falavam em línguas e profetizavam” (19.6).

As línguas estranhas não são apenas um sinal do batismo em apreço. Elas também são apresentadas no Novo Testamento como um dos dons do Espírito Santo pelo qual Deus fala com o seu povo (1 Co 12.10,30). O dom de variedade de línguas é usado pelo Espírito em conexão com o dom de interpretação das línguas (cf. 1 Co 12.10,28,30; 14.5,13,26-28).

Há pessoas batizadas com o Espírito que falam em línguas, mas não são portadoras de mensagens proféticas. E é aqui que reside muita confusão. Mas, em Atos 2.16,17 e 19.6, vemos que as línguas ocorreram inicialmente como sinal do batismo e, logo depois, quase ao mesmo tempo, houve a manifestação do dom de variedade de línguas.

No dia de Pentecostes, as línguas “como que de fogo” vieram do céu. Não foram produzidas por vontade humana. Hoje, infelizmente, há pregadores e cantores que mandam o povo “dar uma rajada de línguas estranhas”, o que é uma aberração. Ainda que o espírito do profeta esteja (ou deva estar) sujeito ao profeta, não falamos em línguas apenas porque queremos falar, e sim porque elas foram antes geradas sobrenaturalmente em nosso espírito. É o Espírito Santo quem acende o fogo em nossos corações!

É preciso ter em mente, então, que as línguas estranhas são multiformes em sua manifestação. Elas inicialmente são o sinal do batismo com o Espírito. Mas também podem conter mensagens proféticas, que precisam — geralmente — de interpretação, a menos que elas sejam conhecidas do público, como ocorreu no dia de Pentecostes. E elas, ainda, edificam o crente (1 Co 14.4).

Muita gente se opõe às línguas estranhas, mas elas são o único dos dons — entre as manifestações esporádicas do Espírito — do qual está escrito que edifica o seu portador. Os outros edificam a igreja. Paulo, em 1 Coríntios 14, asseverou que falava mais línguas (estranhas) que todos os coríntios (v.18) e ensinou: “Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar e não proibais falar línguas” (v.39).

As línguas para edificação do crente são mencionadas na Bíblia como um meio de o crente falar diretamente a Deus na dimensão do Espírito Santo: “Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios” (1 Co 14.2). Essa oração “no Espírito” é confirmada em outras passagens, como 1 Coríntios 14.14,15; Romanos 8.26; Efésios 6.18; e Judas v.20.

Embora haja manifestações pseudopentecostais no meio dito pentecostal, isso não é motivo para desprezarmos o que a Bíblia diz a respeito das línguas “como que de fogo” produzidas sobrenaturalmente pelo Espírito. Mas tenho visto muitos zombarem delas. Esses ignoram que, através desse dom espiritual, o crente louva e adora a Deus melhor, inclusive cantando, dando-lhe graças (1 Co 14.15-17; Ef 5.19), magnificando-o e falando de suas grandezas (At 2.11; 10.46).

Como se vê, o estudo sobre as línguas estranhas é vastíssimo e, por isso, o crente que se preza não o despreza. Afinal, a Palavra de Deus afirma, em 1 Coríntios 14.26: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”. E essa recomendação não é apenas para os crentes que se dizem pentecostais, mas para todo o povo de Deus!



Autor: Pastor Ciro Sanches Zibordi

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