A SÍNDROME DA GABRIELA E AS FILHAS DE ZELOFEADE

Imagem: Gabriela - Cravo e Canela (Obra de Henrique Passos)

Por Pastor Hafner


O texto abaixo foi baseado em uma pregação que fiz na Comunidade Cristã Ministère Maison de Paix, aqui em Bruxelas (Bélgica), no dia 03 de dezembro de 2017. 


Algumas empresas tem tratado com muita seriedade a Síndrome da Gabriela, pois a falta de inovação tem trazido grandes prejuízos. Estudando o assunto, constatei que dentro de algumas igrejas há crentes com esse mesmo tipo de problema – podendo até ser um problema da própria liderança. Já agradecendo a vossa preciosa visita ao nosso Blog, solicito-lhe que leia o texto, reflita e opine.   


"Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim... Gabriela...". O trecho da música composta por Dorival Caymmi fez muito sucesso na década de 1970 na voz de Gal Costa, quando foi tema da personagem central da novela Gabriela – uma adaptação para a televisão da obra "Gabriela, Cravo e Canela" de Jorge Amado. Gabriela, segundo a trama escrita em 1958 pelo autor baiano, foi uma mulher que não conseguiu se adaptar aos padrões sociais impostos pela sociedade da época e lugar em que viveu – anos 1920, em Ilhéus, Sul da Bahia. Vale salientar que Gabriela nunca existiu. De qualquer forma, a decisão da personagem em manter o seu jeito um pouco rude e não se enquadrar ao modus vivendi de uma cidade onde não havia nascido e crescido, serve de exemplo para definir pessoas com o mesmo comportamento obstinado; pessoas que não são abertas às mudanças, pois possuem mentes inflexíveis. Daí dizer-se que essas pessoas possuem a Síndrome da Gabriela. É como se elas sempre declarassem: "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...". 

Em muitas igrejas, por incrível que pareça, há muitos crentes que possuem a Síndrome da Gabriela, pois nunca tomaram posse da vida abundante que o Senhor Jesus já lhes concedeu (Cf. João 10.10b) – não me refiro aqui à riqueza terrena, pois sou averso à Teologia da Prosperidade. Falo daqueles irmãos e irmãs que, uma vez tendo alcançado a salvação eterna e estando debaixo das promessas de Deus, continuam levando uma vida tacanha, sofrida. São crentes que creem que vão morrer da forma que nasceram, pois continuam sem perspectiva de vida; não tomam posse das promessas e da herança que já lhes foram garantidas. As filhas de Zelofeade não eram assim. Elas, com toda a certeza, não possuíam a Síndrome da Gabriela. Mas, quem foram as filhas de Zelofeade? Vejamos abaixo o que a Bíblia diz sobre elas no Livro dos Números (Nm 27.1–7)

E chegaram as filhas de Zelofeade, filho de Héfer, filho de Gileade, filho de Maquir, filho de Manassés, entre as famílias de Manassés, filho de José (e estes são os nomes de suas filhas: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza); e puseram-se diante de Moisés, e diante de Eleazar, o sacerdote, e diante dos príncipes e de toda a congregação, à porta da tenda da congregação, dizendo: Nosso pai morreu no deserto e não estava entre a congregação dos que se congregaram contra o SENHOR na congregação de Corá; mas morreu no seu próprio pecado e não teve filhos. Por que se tiraria o nome de nosso pai do meio da sua família, porquanto não teve filhos? Dá-nos possessão entre os irmãos de nosso pai.

E Moisés levou a sua causa perante o SENHOR.

E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: As filhas de Zelofeade falam retamente; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; e a herança de seu pai farás passar a elas. (...)


Ilustração: Filhas de Zelofeade à porta da tenda


Zelofeade havia morrido no deserto de Moabe juntamente com todos que murmuraram contra o SENHOR (Nm 14.35). Ele não teve filho homem, apenas filhas, e, segundo a lei daquela época, filhas mulheres não tinham direito à herança. Todavia, as filhas de Zelofeade – Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza – não se conformaram com a situação, mesmo estando em luto e angustiadas devido a morte do pai. Sabiam que sobre elas repousava a promessa de Deus de herdarem a terra prometida de Canaã, pois eram descendentes de "José do Egito". Elas não se acomodaram e nem temeram. Contudo, não recorreram a tribunais simplesmente humanos, mas se posicionaram de pé à porta da tenda, diante de Moisés, do sacerdote Eleazar, dos príncipes e de toda a congregação (Nm 27.2). 

Elas poderiam ter aceitado a situação imposta por uma lei que nunca havia sido questionada. Poderiam ter dito que haviam nascido mulher e, sendo assim, deveriam aceitar tal condição. Acontece que elas não tinham a Síndrome da Gabriela. Sabiam muito bem que o SENHOR é justo e, portanto, não as privaria de uma promessa feita aos seus antepassados. Elas tomaram posse de uma herança antes mesmo da lei ter sido alterada por Deus.  

Crentes que creem nas promessas do SENHOR e conhecem a Sua fidelidade permanecem firmes, como vendo o invisível, e mudam de atitude sempre que necessário. Eles não se conformam com as situações que os remetem para a derrota. Lembremos da mulher do fluxo de sangue (Mt 9.19-22; Mc 5.25-34; Lc 8.43-48). Ela padeceu por longos doze anos de um fluxo de sangue e gastara todos os seus recursos com os médicos, e por nenhum pudera ser curada. Se ela tivesse a Síndrome da Gabriela, certamente não teria tomado a atitude que tomou. Ainda sangrando, arriscou-se no meio de uma grande multidão para mudar a situação na qual vivia por tanto tempo. A fé dela no Senhor Jesus foi tão grande que nada a impediu de enfrentar os obstáculos, não só físicos, mas, também, legal, tendo em vista que uma mulher com hemorragia deveria permanecer isolada da sociedade, não podendo tocar em ninguém. Ela foi curada por que não tinha em mente "...eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim" que impõe derrotas à muita gente.   

O cego Bartimeu é outro exemplo de alguém que não tem a Síndrome da Gabriela. Ele não aceitava continuar vivendo da mesma forma que vivia desde criança. Ao ouvir falar do Senhor Jesus e sobre os milagres que Ele vinha realizando por onde passava, Bartimeu não só acreditou, mas, também, se colocou na posição correta e tomou a atitude necessária para tomar posse da sua vitória (Mc 10.46-52).  

Infelizmente ainda há crentes que não acordaram para o fato de que são filhos e filhas de Deus, e, portanto, são herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Cf. Rm 8.16). Conhecem o Salmo 23, mas não internalizaram a mensagem do texto. Essas pessoas participam de inúmeras campanhas, mas sempre acabam vazias e deprimidas. Geralmente são frias durante os Cultos e se sentem excluídas de todas as promessas proclamadas na Bíblia Sagrada. Em lugar da cruz de Cristo, teimam em carregar a cruz da depressão e do desespero. É possível que até creiam que no céu vão andar cabisbaixas. Eu sei que o Senhor Jesus nos avisou que neste mundo teríamos aflições. Todavia, Ele nos disse para termos bom ânimo, pois Ele venceu o mundo (Cf. Jo 16.33).

A minha oração é para que todos os crentes salvos vivam em profunda alegria, apesar das circunstâncias desfavoráveis que este mundo nos proporciona. A alegria da salvação deve superar os momentos de tristeza e nunca deve cessar em nossos corações. Sabedor dessa verdade, Davi escreveu: "Torna a dar-me a alegria da tua salvação..." (Sl 51.12). Mesmo tendo sido perdoado do seu pecado, Davi sabia que sem a alegria da salvação não seria possível seguir adiante. Mas, claro, ele queria mudança e, portanto, clamou: "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado..." (Sl 51.1,2). 

Davi, ainda que em um outro contexto, agiu como as filhas de Zelofeade, ou seja, não se conformou com a situação na qual havia entrado. Ele continuou clamando: "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve... Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto." (Sl 51.7,10). 


Se  Davi tivesse a Síndrome da Gabriela, ao invés do Salmo 51, talvez ele tivesse escrito o seguinte: "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...". Isso o teria impedido de ser um homem segundo o coração de Deus (Cf. I Sm 13.14) e, por consequência, a história da sua vida teria sido outra. Sendo assim, concluímos que andar na contramão do que fizeram as filhas de Zelofeade (Nm 27.1-11), a mulher do fluxo de sangue (Mt 9.19-22; Mc 5.25-34; Lc 8.43-48), Bartimeu (Mc 10.46-52) e Davi (Sl 51.1-19)
 é perder a oportunidade de viver uma vida abundante, cheia de muita paz, alegria e esperança, já garantida na Cruz do Calvário pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.